segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Qual o preço do quilo?

Qual é o peso de uma memória
Qual o preço de um abraço
Quão forte tem que ser um laço
Pra suportar a carga de uma história

terça-feira, 14 de abril de 2026

Sanpaku

Eu só tenho o meu ego
Não tenho mais nada

Como é que vou ter apego
A uma coisa tão quebrada?

(Na tradição japonesa "Sanpaku" ou "três brancos" refere-se a olhos em que é possivel observar a parte branca/esclera nas laterais e na parte inferior ou superior da iris. É associado a desequilibrio energético  e considerado um mal presságio)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Lepidoptera

Do botão a borboleta
Sentir a dor do parto
Sair do quarto
Toda e incompleta

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

29

Tristeza não conhece abrigo,
Felicidade tem seu termo.
Há um silêncio antigo
Que em mim se faz eterno.

Desisti de buscar sentido,
Não há vontade nem governo.
Essa dor segue sem destino,
Como um rio imenso.

Num oceano sem fronteira,
Passam memórias, passam planos.
Só não se vai essa geleira,
Que há de cessar com meus enganos.

Tristeza não tem fim,
Felicidade sim
Ninguem explica esse vazio
Que cresce aqui dentro de mim

Já desisti de entender
não tenho forças nem o poder
Essa tristeza é como um rio
Para eu navegar e padecer

Num infinito oceano
Passam os dias, passam os anos
Só não passa esse frio
Só vai passar quando eu morrer


quinta-feira, 20 de março de 2025

Não tem um dia ruim que não possa piorar com uma caneca da café preto

O brasileiro é viciado em cafeína. Essa cafeína vem em várias formas, seja no chimarrão do Sul, no guaraná do Norte ou no cafezinho que se toma em todas as partes. Nós gostamos tanto de café que, para nós, café é sinônimo de refeição. Ao menos duas refeições do dia do brasileiro são batizadas em homenagem à bebida: o "café da manhã" e o "café da tarde". Mas isso não significa que o almoço não seja tradicionalmente encerrado com um cafezinho ou que os mais corajosos (como minha avó) não tomem uma grande caneca de café com leite durante o jantar.

Existem muitos estudos que exploram a relação do consumo brasileiro com o café. Um estudo da revista Superinteressante mostra que, quanto mais filhos o brasileiro tem, maior é o seu consumo de café. A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) fez um estudo em que ficou demonstrado que 46% dos brasileiros bebem entre três e cinco xícaras diariamente, e 29% consomem mais de seis xícaras de café por dia. Outro estudo, feito pelo Instituto Agronômico (IAC) em parceria com a UNICAMP, concluiu que 61% dos consumidores afirmam que o café melhora o humor e a disposição, destacando a importância da bebida no bem-estar diário.

Eu não posso falar por todos os brasileiros, mas acredito que minha relação com o café seja parecida com a de muitas outras pessoas. Café, para mim, é um instrumento de trabalho. Eu não gostava (gosto?) de café. Antes de entrar no mercado de trabalho, quando eu precisava ficar acordada, apelava para outras fontes de cafeína: chá verde, chá-mate, guaraná, energético... Mas quando comecei meu primeiro estágio, criei o hábito de tomar café por ele ser de fácil acesso.

Eu acordava cedo para ir para a faculdade, passava a manhã estudando e, depois do almoço, ia estagiar na Promotoria de Proteção à Saúde Pública. E eu tinha muito sono. Era muito difícil ficar acordada, lendo letras miúdas em um lugar escuro e silencioso sem ter sono. Por isso, comecei a tomar o café da promotoria. Era um café bem ruinzinho, comprado por licitação e feito às pressas com água fervendo. Eu misturava esse café com quantidades absurdas de leite em pó (também comprado por licitação) em um copo de poliestireno e criava um creme fumegante para me manter acordada até a hora de ir embora.

Como é natural, com o tempo minha resistência ao café foi aumentando, assim como a quantidade de café que eu tomava. Atualmente, meu consumo de café é limitado a uma xícara de café com leite assim que eu acordo e mais uma xicrinha de café preto, sem açúcar, depois do almoço. Não porque eu goste particularmente do gosto, mas porque, sem esse up da cafeína, parece que não tenho energia para enfrentar meus compromissos. É uma relação de dependência. Alguns dias particularmente ruins pedem por uma grande caneca de café preto, tal qual uma festa ruim pede por um grande copo de destilado que vai te manter ocupado e anestesiado até poder voltar para casa.

Mas a que custo? O café, além de não ser exatamente agradável ao paladar, também faz mal para o estômago e para a cabeça. Tremedeira, crise de ansiedade, azia, dor de estômago e gosto ruim. Talvez essa ruindade toda sirva para nos distrair da desgraça que é a vida do trabalhador brasileiro. Como é que dizem? Que o remédio para dor de cabeça é uma martelada no dedo?

No fim do dia, sobra no fundo da caneca aquele último gole de café frio que seu corpo rejeita. Um desfecho amargo para um dia ruim.


 

domingo, 1 de dezembro de 2024

Pinheirinho Decolonial do Caos

Fim de ano chegando. Cerca de 7,9 bilhões de pessoas vão se unir e comemorar o ano novo do calendário Gregoriano. O natal, não tão popular, é comemorado por 2,5 bilhões. Essas datas são um dos poucos momentos que restam ao homem moderno para marcar os ciclos. O natal por exemplo surgiu no hemisfério norte e era a data onde os povos pagãos se uniam para ascender fogueiras, comer castanhas, frutas secas e outros alimentos calóricos uma vez que era a noite mais longa do ano. O calor, as luzes, a comida e o calor humano eram essenciais para a sobrevivência dessas pessoas já que o inverno era um período marcado por depressão sazonal, fome, doenças e morte. Acredito que um dos motivos do porquê terem escolhido justamente essa época do ano para marcar o final do ano era, superada a noite mais longa e mais fria do ano, encerrar aquele ciclo de tristeza e iniciar um novo, com esperança. Como se os anciões falassem para os mais novos "Pronto, o pior já passou, vamos deixar nosso desânimo e nossas dores para traz e iniciar um novo ciclo com esperança e energia de viver".
Caso você não tenha percebido até hoje, nós aqui em terras tupiniquins também temos nossa data para ascender fogueiras, comer alimentos calóricos e dançar de barriga coladinha. São as festas juninas/julinas, sendo que o dia de São João marca nossa noite mais longa do ano. Não é a toa que o ano-novo tupi-guarani ocorre justamente em agosto, o Ara Pyaú (tempo novo). O ano novo e o natal são datas trazidas pelos colonizadores já sincretizadas com uma mensagem cristã bastante deturpada (estudos bíblicos apontam que jesus nasceu em março, não em dezembro). Os cristãos não satisfeitos em apagar os significados natalinos também apagaram os significados das festas juninas/julinas. 
Ao meu ver, comemorar o fim do ano em plano verão é uma prática terrível para nós moradores do hemisfério sul. O verão é um momento onde nossa energia está lá em cima, nossas plantações estão em pleno vigor e nos estamos conectados com aquilo que semeamos na primavera. Não faz sentido interromper um ciclo nesse momento. O renascimento só pode ocorrer depois da morte e não faz sentido nós matarmos nosso ano simbolicamente quando ele está no auge de sua energia.
 Se eu vou me decolonizar a ponto de parar de celebrar o natal e o ano novo em dezembro? Provavelmente não. Para mim é importante poder viver esse momento em sintonia com as pessoas que me cercam, sem contar que as férias coletivas do meu trabalho não são em julho mas sim em dezembro.
Essa reflexão toda levou muitos anos para acontecer aqui dentro de mim mas eu sei que eu sempre senti um grande desconforto nessa época do ano. Usar enfeites de boneco de neve, fitas de veludo e toucas vermelhas com pom-poms felpudos sempre pareceu muito errado para mim que chego nessa época do ano suando em bicas e com as chinelas no pé. Outra coisa que sempre me incomodou profundamente foi enfeitar árvores de plástico. A ideia da árvore de plástico por si só sempre me soou muito errada. Acho que a árvore de plástico representa bem demais o natal moderno que já deixou de ser uma celebração de marcar os ciclos para uma amalgama do que sobrou de simbolismo cristão com uma dose cavalar de consumo capitalista. A árvore padronizada, que nunca envelhece, sem defeitos e que pode ser reconhecia a distância em qualquer lugar. A árvore de natal imita nossas comidas padronizadas e cheias de conservantes e as nossas roupas onde a logomarca pode ser reconhecida de longe e que não podem apresentar sinais de uso, precisam estar sempre novas. Rasgou? Joga fora e compra outra. Enjoou? Compra outra.
Sei que eu na inocência da minha infância eu ficava me imaginando enfeitando uma árvore de verdade. E uma árvore viva! Não uma árvore cortada como os gringos montavam nos filmes. Cada ano eu reimaginava minha árvore. Talvez uma palmeira de natal, ou uma araucária de natal! Os enfeites seriam conchas já que verão é época de ir para praia e a ceia seria uma caranguejada já que é época de uçá!
Esse dia chegou. Me mudei da casa dos meus pais e vim morar com meu ajuntado no nosso próprio apartamento. Quando vi a primeira loja precocemente arrumada para o natal o bicho decolonial já começou a me dar coceira e me vi tendo que realizar minha visão, para não decepcionar a Carol criança.
A forma que a Carol adulta com ajuda de seu fiel companheiro Eduardo tiveram de realizar o primeiro pinheirinho decolonial foi ir até a chácara dos meus pais, colher um galho de pinheiro nativo (também conhecido como podocarpo) e fazer uma estaquia em um vazo. Vamos torcer para que ele sobreviva. Minha mãe muito querida me doou pequenas bolinhas vermelhas e luzinhas de natal, mas ainda queremos fazer nossos próprios enfeites.
O processo de arrumar o pinheirinho decolonial é sem dúvida muito diferente da árvore de plástico. Primeiro porque o pinheirinho decolonial veio cheio de incetinhos nativos decoloniais e minha cabeça muito colonizada, sem reconhecer se são insetos que podem ser perigosos para mim ou para minha casa,  logo procedeu um genocídio bem colonial. O pinheirinho decolonial nos faz perceber quão profunda são as raízes coloniais. Outra coisa que aconteceu foi perceber que nós pessoas colonizadas temos uma tolerância baixa a imperfeições e imprevistos. Quando eu e o Edu estávamos colocando as luzinhas, vendo que essa árvore que não é industrializada e não tem um padrão na colocação dos galhos, um sentimento de desespero se apossou de nós e logo depois veio o desanimo. Foi nessa hora que o Edu, que tem raízes nativas mais profundas que as minhas, me passou uma grande sabedoria originária "Carol, parte de ter um pinheirinho decolonial é entender que ele vai ser caótico mesmo e está tudo bem". As tropas recuperaram a moral nesse momento. Na hora de colocar as bolinhas eu senti uma ternura enorme pelo meu pinheirinho decolonial do caos. Colocar enfeitinhos em seus galhinhos fez eu sentir que estava fazendo carinho nele e, derrepente, enfeitar uma árvore fez muito sentido. Falei para o Edu "na verdade enfeitar uma árvore faz todo sentido do mundo". Edu concordou comigo e completou "acho que deve ser uma das prática mais antigas da humanidade que se mantém ate hoje". Podiamos ter parado por ai. Entretanto, eu, colonizada que sou, quis insistir e lutar contra a decolonialidade da natureza e peguei arames para tentar endireitar partes muito tortas da árvore. O Edu, com sua sabedoria nativa se recusou a participar dessa parte e eu, colonizada, recebi a quarta e última lição do pinheirinho decolonial do caos. Ao tentar prender (com toda a delicadeza que minhas mãos coloniais conseguiam exercer) seus galhos naturalmente tortos e perfeitos eu machuquei a árvore, arranquei algumas folhas e quebrei alguns galhos (coisa impossível se se fazer em uma árvore de plástico) até quebrar o ramo do topo do pinheirinho, simplesmente a parte mais importante de todo pinheirinho de natal. Respirei fundo. Dei um passo para trás. Finalmente, aceitei a o pinheirinho decolonial do caos como ele é. Tortinho, perfeito em suas imperfeições e muito vivo. As feridas que fiz no pinheirinho e em mim mesma serviram para me lembrar que sempre vamos errar ao tentar algo novo. O pinheirinho decolonial do caos está piscando aqui do meu lado enquanto eu escrevo essa crônica, aguantando firme e te desejando um feliz natal.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Criança Gótica

Sabe aquele momento que você está refletindo a respeito de coisas que aconteceram a muito tempo atrás e tem uma realização que muda completamente sua perspectiva sobre memórias antigas? Talvez você não tenha isso mas eu tenho o tempo todo. Talvez sejam muitos anos fazendo análise, talvez seja só porque sou uma pessoa nostálgica.

Esses dias eu estava refletindo sobre a minha infância . Eu sempre me retratei nas minhas memórias como uma criança descabelada e selvagem, que gostava de andar descalça, subir em árvores, comer plantas do chão e brigar com os outros. Acho que grande parte disso se da ao fato de eu ser uma adulta notoriamente descabelada que gosta de andar descalça, subir em árvores, comer plantas do chão e vem perdendo gradualmente o gosto por brigar (os últimos quatro anos esgotaram minhas reservas de indignação).

Foi então que eu tirei um momento para refletir não como eu me vejo como criança mas como as outras crianças provavelmente me viam. Nesse momento eu percebi que eu era uma criança gótica. E explico o porquê:

Eu não fiz amigos na escola até a sexta série do ensino fundamental, na maior parte do tempo eu estava sozinha. Assim, meus recreios da primeira série até a sexta  foram de isolamento nos 150 mil m² de Colégio Medianeira. A maior parte das crianças se dedicava a prática de esportes nesse meio tempo (meninos jogavam futebol, meninas pulavam corda e ambos jogavam caçador) e alguns grupos se reuniam para conversar e brincar de "faz de conta" e outras brincadeiras do gênero. O pátio ficava lotado de crianças correndo para todos os lados, subindo nos brinquedos e brincando. Até hoje eu sinto um enorme desconforto ao lembrar do concreto colorido com amarelinhas, uma rosa dos ventos e um mapa-múndi. Eu não era uma dessas crianças. Enquanto todos se reuniam para brincar nesse pátio eu me afastei nesses cinco anos para o limite até onde me era permitido ir. Para lá do Bosque 1,  no início do Bosque 2, era o limite de onde as crianças do primário podiam ficar e era para lá que eu ia. 

Você pode estar se perguntando "Mas Carol o que tem de gótico nisso? Você era uma criança antissocial, nada mais". Calma, você vai entender. A questão é que o inicio do Bosque 2 naquela época não era nada mais nada menos que o túmulo do Padre Oswaldo Gomes, o fundador do Colégio Medianeira. A história que eu conhecia é que o Padre tinha morrido em um acidente de avião e naquele túmulo de granito rosa e preto estava sepultado seu corpo. Mais sinistra ainda era a imagem dourada de Nossa Senhora ali exposta, toda amassada, com o rumor de que o Padre segurava a Santa na hora da morte. O tipo de coisa que só os católicos e seu insaciável culto a morte poderiam colocar em uma escola. E o tipo de ambiente em que a pequena Carol de seis anos se sentiu confortável em passar os seus intervalos de meia hora.

Quando eu paro para refletir eu não consigo entender se eu passava tanto tempo lá para não ficar junto de outras crianças porque eu não gostava delas ou se eram elas que não gostavam de mim. Provavelmente um pouco dos dois. A verdade é que muitas crianças tinham medo de ir até o túmulo do Padre. Por algum motivo eu não tinha esse medo. Eu não era uma criança corajosa, com frequência tinha pesadelos e ia dormir com minha mãe. A bruxa da Branca de Neve e zumbis eram o meu maior terror. Por algum motivo o túmulo do Padre não me despertava esse sentimento. Talvez fosse porque meus pais me levassem em cemitérios desde muito pequena. Talvez meu medo de ter que interagir com outras crianças fosse maior que o medo que eu deveria sentir do túmulo. Provavelmente um pouco dos dois.

 Eu eventualmente tinha outras aventuras, até porque a vida toda tive que ir para aulas de reforço no contraturno, quando a escola estava vazia e eu me sentia mais a vontade para explorar outros ambientes, como a biblioteca e a sala da direção quando não tinha ninguém. A diretora deixava a porta destrancada, mas pouca gente sabia disso. Quando eu não estava em movimento pelas minhas andanças pela escola vazia (inclusive durante o período de aula quando eu supostamente deveria estar no banheiro ou na enfermaria) eu estava no túmulo. Se alguém quisesse me procurar, pode ter certeza que ia encontrar a pequena Carol sentada no banco ou até mesmo na beira do túmulo do Padre. Normalmente comendo um bolinho de chocolate ou um pacote de batatas chips.

Se você encontrasse a pequena Carol nessa situação é capaz que ela ficasse por lá alguns minutos esperando você ir embora. Caso contrário ela quem iria levantar e ir embora de mal humor.

Por isso digo que eu era uma criança gótica.

 

 (P. Oswaldo Gomes, o homem cujo túmulo abrigou parte da minha infância.) 

 



quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Tome Jeito

Tenho tanta coisa para fazer

E eu nem sei mais o que pensar

Tome jeito nessa vida, mulher!

Então parei para tomar um ar

E eu juro que não é preguiça!

É que eu não sei nem por onde começar

Minha cabeça está uma bagunça!


segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Essa história não é sobre a Alemanha

    Com 84 anos e a saúde precária, Hindenburg foi convencido a candidatar-se a Presidente para as eleições de 1932, por ser considerado o único capaz a fazer frente a Adolf Hitler nas urnas. Hindenburg estava aposentado da vida política, pois já tinha governado a Alemanha em 1925, já com a idade avançada.  Ele ganhou as eleições de 1932 no segundo turno.  Hindenburg pouco podia fazer por ter a minoria no congresso.

Hindenburg odiava Hitler, mas mesmo assim foi considerado culpado por muitos pela sua ascensão. Isso porque Hindenburg foi presidente durante a República de Weimar, um período de adaptação da Alemanha que estava dando seus primeiros passos no mundo democrático. Ainda sim, fortemente influenciada pelas forças militares e por grandes proprietários de terra da antiga nobreza imperial.

   As circunstâncias em que foi criada a República de Weimar foram muito especiais. Prestes a perder a Primeira Guerra Mundial, a liderança militar alemã, altamente autocrática e conservadora, atirou o poder para as mãos dos democratas, em particular o SPD, que acabou por ter de negociar a paz. Durante aquela época nenhum partido foi capaz de obter a necessária maioria parlamentar que o permitisse governar. Os desacordos em relação às políticas econômicas, bem como a crescente polarização política entre os partidos de direita e de esquerda, impediam a formação de uma coalizão operacional e, por esta razão, após junho de 1930 uma sucessão de primeiros-ministros abdicaram tornando o ambiente político, social e econômico muito instável.

    Foi naquele período de instabilidade que o Partido Nazista emergiu de sua obscuridade como partido pequeno para a proeminência nacional. O Partido Nazista conseguiu aumentar drasticamente seu apoio popular ao se promover como um movimento de protesto contra a corrupção e a ineficácia do "sistema" de Weimar.

    Hindenburg acabou por nomear Hitler como Chanceler da Alemanha em Janeiro de 1933 que ascendeu ao poder dentro da constitucionalidade alemã da época.

    A perseguição e a violência contra judeus era clara. Mas judeus viviam em um território que não era frequentado pela maioria do povo Alemão e muitos deles se quer conheciam um judeu. Apenas 1% da população alemã era judia. Sem contar que judeus eram perseguidos desde a idade média então pode se dizer que a maioria dos alemães não se importavam. Quem protegia judeus também era morto. A verdade é que o Estado Alemão comandado por uma minoria rica tinha muito interesse na riqueza dos judeus, que por serem perseguidos durante muitas décadas tinha o costume de guardar ouro em casa por não poder contar com a segurança de um banco ou de um cartório.

    Não eram só os judeus que eram perseguidos. Ciganos e pessoas de pele escura no geral, comunistas, feministas e LGBT também tiveram que submeter-se ao silencio ou sofrer violência na rua. Quem habitava a Alemanha nazista mas não compactuava com seus ideais pode não ter perdido sua vida literalmente, mas perdeu todos os anos de vida e juventude para o medo, para o silêncio e para a fome.

    Indústrias como a Bayer,  Volkswagen, BMW, Mercedes e até mesmo a Coca-Cola, enriqueceram com o Holocausto. Por coincidência (ou não)  a mesma Bayer e a mesma Coca-Cola estão enriquecendo com a invasão de terras indígenas pelo garimpo e pelo agronegócio. Mas indígenas vivem em um território que não é frequentado pela maioria do povo Brasileiro e muitos deles se quer conhecem um indígena. Apenas 5% da população brasileira é indígena. Sem contar que indígenas são perseguidos desde a 1500 então pode se dizer que a maioria dos Brasileiro não se importa. Quem protege indígenas também é morto. 

E cá estamos perdendo nossos anos de vida e juventude para o medo, para o silêncio e para a fome.


Eu visitando  a exposição "Amazônia" mostra de Sebastião Salgado


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Esmo

Perdi o meu rosto

vivendo a esmo

longe de eu mesmo

e de todo resto.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Cupuaçu me faz chorar

 Voltei ontem da minha terceira viagem para a Amazônia. Quem me conhece um pouco, ou quem lê meu blog, sabe que eu tenho um amor profundo por florestas. Árvores, pedras, fungos e animais tem a capacidade de gerar uma descarga enorme de endorfina no meu corpo. Água corrente então, me desperta um êxtase que beira o amor erótico (no sentido platônico da palavra).  Viajar para a Amazônia para mim é sempre uma experiência maravilhosa, que eu considero infinitamente superior a viajar para Disney ou para Paris.

A primeira vez que eu estive na Amazônia foi com minha melhor amiga, Eduarda. Ela não tem irmãos e, sabendo do meu amor por florestas, me convidou muito gentilmente para a festa de oitenta anos de sua vó, Dona Socorro, lá em Manaus. A família materna da Duda é de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre. Não são indígenas mas são de uma realidade totalmente diferente da minha e foi um grande choque cultural conhecer e interagir com eles. Ainda sim, foi maravilhoso porque são pessoas muito calorosas e receptivas. O padrinho da Duda, apelidado carinhosamente de tio Jejé, me serviu uma infinidade de peixes, frutos e farinhas que eu nunca teria capacidade de memorizar em tão pouco tempo. Ele e o tio Junior nos levaram para conhecer parques, mercados, o rio Negro, algumas beiradas da floresta e inclusive uma aldeia de indígenas Tukano que recebe turistas. Foi a esposa do tio Junior, Adriana, que me deu cupuaçu para eu experimentar pela primeira vez em um delicioso mousse. Eu sou eternamente grata a todos eles e provavelmente eles nunca vão saber o quanto a receptividade deles foi importante para mim e como aquela experiência me marcou pelo resto da vida.

A segunda vez que eu fui a Amazônia foi a convite da Universidade  Católica de Rondônia. Mais especificamente um convite feito ao meu pai, para participar de um evento, feito pelo coordenador do curso de direito, Prof. Pedro Abib, e pelo seu pai Prof. Dr. Fabio Rychecki Hecktheuer, o reitor. Meu pai e o Prof. Dr. Carlos Frederico Mares de Souza Filho ambos professores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná foram convidados pelo reitor para ministrar uma série de palestras.

(aqui acho necessário abrir um espaço para falar da honra que foi conviver por poucos dias com o Professor Carlos Marés. Poderia falar que ele foi  Secretário de Cultura do Município de Curitiba; Procurador Geral do Estado do Paraná, Presidente da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Procurador Geral do Instituto nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, Presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Presidente do Banco do Desenvolvimento do Extremo Sul – BRDE, Presidente do Instituto Socioambiental – ISA, Membro da Junta Directiva do Instituto Latinoamericano de Servicios Legales Alternativos - ILSA, entre outros, que esses títulos todos iam soar muito interessantes. Sinceramente? Nada disso me importa. O que realmente me inspira nesse homem é que ele foi preso e torturado por militares durante a ditadura no Brasil, por defender os direitos humanos, entre eles o direito dos povos indígenas, foi mandado para o exilio, sobreviveu a tudo isso e voltou para contar a história).

Em Porto-Velho eu estava em casa, diferente do sentimento de estranheza que eu tive em Manaus. A cidade era quase toda habitada por sulistas que emigraram para o norte. A Universidade Católica e a casa do professor Pedro me eram muito familiares. A família do professor era de Caxias do Sul, gaúchos iguais ao meu pai, que é de Santa Rosa. Eram católicos fervorosos adeptos da teologia da libertação, sendo pessoas envolvidas com causas sociais e caridade, como eu fui educada a ser. Eles exerciam a docência e meus pais ambos são doutores e professores universitários. Ainda por cima a mãe do professor, Marcia Abib Hecktheuer, era de ascendência libanesa, como a minha mãe.

Eu esperava participar de um evento acadêmico como muitos outros que já havia participado, inclusive em outros países. Fui surpreendida por um evento multicultural que contou com a presença marcante de membros do povo Karitiana. O professor Pedro Habib convidou os indígenas, alguns deles alunos da universidade, para fazer uma apresentação a respeito dos saberes tradicionais que incluiu dança e canto.

O Professor Pedro quando soube que os Karitianas ficariam na casa de passagem indígena da cidade logo acionou seus contatos na igreja católica e arranjou um centro de retiro onde os convidados se sentiriam mais bem recebidos. Para quem não sabe as casas de passagem da FUNAI são lugares decadentes e a grande maioria esta fechada por ser absolutamente insalubre. Os Karitiana ficaram agradecidos e retribuíram a sensibilidade do professor com o presente mais precioso que eles poderiam ter concedido: Convidaram o professor Pedro para conhecer sua aldeia na floresta Amazônica rondoniense. E bom anfitrião que é, convidou seus colegas sulistas para desfrutar desse privilégio.

O professor Carlos Marés não quis nos acompanhar, ele já havia conhecido muitas aldeias. Sendo assim só restou eu de paranaense entre os gaúchos na aventura amazônica. Foram quase quatro horas de viagem. Uma hora e meia de rodovia pavimentada em meio a devastação do pasto do agronegócio até adentrarmos a reserva indígena Karitiana. O professor Pedro, meu pai, Marcia e eu enfrentamos duas horas em uma estrada de terra alagada dentro do território indígena, tomando chimarrão em meio aos buracos, trancos e barrancos.

Os  Karitiana são um povo especial, como todo povo originário. Foram quase extintos na década de 60 alvo da violência de pecuaristas e, sobretudo, de doenças trazidas pelos brancos. Eles foram afastados de seu território original, hoje ocupado por fazendas de gado e obrigados a adentrar o território do extinto povo Joari, pois este povo também falava a língua Arikém. Atualmente os Karitiana são o último povo no planeta que ainda sabe esse idioma. Como se não bastasse os Karitiana também foram alvo de biopirataria em 1987 e novamente em 1996 onde "cientistas" estadunidenses se passando por médicos roubaram material genético de toda aldeia alegando serem profissionais de saúde que trariam medicamentos para eles. Este material está estocado em laboratórios das universidades de Stanford e Yale nos Estados Unidos. Ocorre que para esses povos o sangue possui uma cosmologia própria, pois a alma está no sangue e deve ser sepultado quando fora do corpo. A existência desse sangue em prateleira de uma universidade é uma fonte de sofrimento psíquico e espiritual.

Além dessas mazelas os Karitiana sofreram com outro problema trazido pelo homem branco, no final da década de 70, auge da ditadura militar e genocídio indígena do último século, um casal de missionários neopentecostais estadunidenses adentrou a aldeia para estudar Arikém e posteriormente catequisar os indígenas. Coincidentemente alguns anos antes do roubo de material genético. O resultado dessa intervenção: a aldeia foi divida em dois. De um lado do rio estão os indígenas evangélicos, liderados pelo cacique que também é pastor. Do outro lado do rio, o povo que segue o pajé e os ritos tradicionais.

Depois de toda essa série de abusos, não é de se admirar que esse povo seja receoso quanto a entrada de brancos em seu território. Nós mesmos fomos surpreendido por invasores pescando dentro da área protegida da reserva no nosso caminho para a aldeia. Assim, fomos para lá sabendo da honra que é ser escolhido entre os brancos para conhecer esse território sagrado.

Chegando na aldeia eu me aproximei da Cristiane Karitiana, uma das filhas do cacique pastor. Ela falava um português muito tímido mas parecia animada em me mostrar a aldeia. Me mostrou seu macaco aranha de estimação, uma paca domesticada, araras, papagaios, gatos e cachorros. Conheci a varanda do seu irmão mais velho. A cunhada de Cristiane estava preparando almoço em uma panela de pressão. "O cheiro está bom, o que estão fazendo?" "Macaco" primeiro eu ri, depois percebi que estavam mesmo preparando macaco e meu riso se converteu para um sorriso de constrangimento. Naquele momento outras três adolescentes se aproximaram para falar com Cristiane. Falavam em Arikém e olhavam para mim. Eu consegui distinguir uma palavra em português no meio da conversa. "Apresentação". Nessa hora eu disse "Sim, eu assisti a apresentação". A Cristiane riu e me disse "elas estão dizendo que seus olhos na apresentação estavam assim" e fez um sinal com os dedos no rosto, indicando que meus olhos estavam arregalados na apresentação. Eu transpareci no meu rosto a surpresa e o fascínio de presenciar a cultura originaria em um auditório da universidade de direito.

Andamos pela aldeia, o professor Pedro tomou um banho de rio com as crianças Karitiana que me deixou morrendo de inveja. Eu não podia entrar no rio, iria direto da lá para o aeroporto.

Agora, por que cupuaçu me faz chorar?

Pois bem, eu já disse a você que eu experimentei cupuaçu pela primeira vez em Manaus. O ocorre que a primeira vez que eu vi a fruta e a árvore de cupuaçu foi dentro da aldeia Karitiana. Estava andando com meu pai, o cacique, o professor Pedro e Cristiane. Foi quando avistei a árvore repleta de frutos, muitos no chão e comentei com meu pai "pai, eu acho que é cupuaçu" e meu pai, que me ensinou o amor por colher o próprio alimento, se aproximou muito interessado para recolher algumas frutas do chão e examina-las mais de perto.

Nesse momento um senhorzinho se aproximou. Era um senhor na casa dos setenta ou oitenta anos, pequeno, com olhos cerrados e brilhantes. Veio andando com os braços para trás e olhando para meu pai com um sorriso falou algo em Arikém que nós não entendemos. A Cristiane traduziu para mim "Vocês gostam de cupuaçu? Podem levar, tem bastante".

Foi então que o cacique nos explicou que aquele senhorzinho era seu sogro e foi cacique antes dele. Levou algum tempo para eu entender que esse senhorzinho foi o cacique que viu seu povo ser morto e expulso do território. Por nós, sulistas. Não foram os portugueses, os espanhois ou até mesmo os estadunidenses que dizimaram o povo Karitiana. Fomos nós. Claro que eu, o Professor Pedro, meu pai ou a Marcia nunca mataríamos ninguém nem roubaríamos suas terras. Mas quem somos nós? Membros da universidade fundada para atender os filhos dos fazendeiros e dos moradores da cidade que vive das migalhas dos mesmos fazendeiros. Gente que derruba a floresta para comer carne de boi. A floresta onde os Karitianas vivem. E é claro que o velho cacique sabia disso. Não sabia que éramos da universidade, mas sabia que éramos sulistas. A cuia de chimarrão na nossa mão estava lá para comprovar de maneira inegável de que éramos sulistas.

Levaram meses para eu conseguir absorver essa experiência e esse momento único na minha vida. Ainda estou absorvendo, para ser sincera. Aquele senhorzinho é o único sobrevivente de um etnocídio que eu conheci na minha vida. Aquele senhor, pelos meus cálculos, viu o estilo de vida que foi ensinado a ele pelos seus pais e avós serem destruídos ao longo da sua vida. Foi expulso de sua terra natal onde aprendeu a nadar, a caçar e a cultivar a terra. Viu quase todo seu povo morrer. Teve seu sangue roubado, sua alma roubada. Viu seu povo ser dividido por uma religião de fora.  Por pessoas de pele branca, estatura alta, olhos claros que falam português e tomam chimarrão, assim como eu e meu pai.

 Eu olho torto para pessoas que estacionam o carro na restinga que fica na rua da minha casa da praia.

Não importa o quanto eu pense no assunto eu nunca vou entender de verdade aquele sorriso contido e aquelas palavras em Arikém "Vocês gostam de cupuaçu? Podem levar, tem bastante".

É por isso que hoje em dia cupuaçu me faz chorar.


Eu saboreando um sorvete de cupuaçu em Belém do Pará.




quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Haicai

 Olha, o meu medo

escondido aqui dentro

nem eu encontro



terça-feira, 24 de agosto de 2021

Longa noite

Rolando na cama

em uma noite insônia

 numa dor tão intima

de infinita agonia

 

com aperto no peito

presa em um pensamento

o mundo esta acabando

comigo aqui dentro

 

mas não agora

na noite insônia

não é a hora

quem sabe amanhã

 






segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Rua Canário

 Era uma manhã de verão como muitas outras. O sol estava brilhando alto, havia uma sinfonia de passarinhos cantando e o mato estava impregnando o ar com um aroma verde e vivo. A casa da Rua Canário era pequena e sempre estava cheia de gente. Era uma casa térrea com o piso todo de lajota de cerâmica vermelha daquelas ásperas, antigas. Os móveis eram feitos de palha trançada e tinham cheiro de guardado. O jardim de trás era grande, haviam três sombreiros plantados por lá, os muros eram cobertos de unha de gato e uma trepadeira de alamanda amarela crescia solitária bem aos fundos do jardim. O jardim da frente era ocupado principalmente por uma varanda onde estendíamos até cinco redes de uma vez só. Um dos problemas frequentes da varanda era o guano dos morcegos que deixava a parede que ia de encontro ao teto pintada de vermelho, devido ao fruto dos sobreiros.  Aquela varanda dava de frente para um pequeno jardim com um sombreiro plantado e uma cerca viva de hibiscos carmim. Ali na frente era possível observar cambacicas de barriga amarela com suas mascaras pretas bicando os hibiscos, uma profusão de beija-flores coloridos e de todos os tamanhos além de, claro, os canarinhos-da-terra amarelinhos de testa alaranjada que tomavam banho na estrada de terra esburacada da frente da casa. Eles costumavam ficar no portão de ripas de madeira, que devia ter meio metro de altura, espiando para dentro de casa enquanto eu espiava eles da varanda.

Como de costume eu tomei um copo de nescau e comi duas fatias de pão, uma com manteiga e outra com mel. Esse café da manhã era o suficiente para me manter em uma manhã ativa nos entornos do balneário dos Amigos do Banco Bamirindos Uirapuru, ou ABU, para ser mais simples.

De manhã costumávamos ir todos juntos para a praia. Meus avós, meus pais, minha tia Mirna, meus dois tios, minha irmã mais velha e eu.

Para ir a praia saíamos munidos de um guarda-sol algumas cadeiras e obviamente, um par de baldinhos com pazinhas de plástico para fazer castelos de areia. Saiamos da casa e seguíamos na rua canário onde tínhamos que cruzar com mais duas estradas de terra antes de encontrar uma restinga vasta, com salsa da praia se alastrando pelo chão cheia de flores roxas e tocas de coruja buraqueira que estavam sempre por ali, piando para quem passava. Havia um campo de futebol de areia e um quiosque também, mas eu não frequentava muito esses lugares.

Depois de pular a areia fofa escaldante que cozinhava a sola do pé, chegávamos a praia onde uns bons trinta metros de areia davam para o mar itapoense de água escura e ondas baixas e desordenadas.

Foi naquele dia que meu avô pegou na minha mão e caminhou comigo até o mar. Meu vô era um homem baixo e largo. Tinha a cabeça grande e quadrada, o cabelo castanho bem grosso penteado pra trás. Tinha o nariz quebrado,  grudado no rosto, caído e largo. Seus olhos eram acinzentados e semicerrados pela idade. A pele do rosto e braços era avermelhada enquanto a da barriga era branca. Por falar na barriga ela era proeminente e possuía uma impressionante cicatriz vermelha que vinha do meio do peito até o umbigo. Ele me dizia que ficou com aquela cicatriz por que ele comia sem lavar as mãos quando era criança então toda a sujeira se acumulou e virou uma pedra na sua barriga que ele teve que fazer uma cirurgia para tirar. Com o tempo eu soube que ele tirou uma pedra da vesícula e naquela época as cirurgias eram bem mais invasivas.

Meu vô me levou para dentro do mar pela mão. Conforme ia ficando mais fundo as ondas iam batendo e ele puxava meu braço para que minha cabeça ficasse sobre as ondas. Até que eu não conseguia mais encostar o pé no chão. Então ele me pegou no colo e me levou até a arrebentação parar, onde o mar ela calmo.

La, ele me colocou deitada na água e falou para eu encher minha barriga com ar. Para eu deixar meus braços, pernas e cabeça moles. E foi assim, em poucos minutos eu estava boiando e meu avô levantou as mãos para que eu visse que estava boiando sozinha. Daquela forma, quando eu estivesse no mar, mesmo que uma onda me puxasse, eu não me afogaria. Desde então, eu não tenho medo do mar.

Sempre que eu vejo o mar, em qualquer lugar do mundo que eu esteja, eu lembro do meu avô.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Babitonga

Os vidros da casa estavam todos embaçados. As paredes estavam suando, brilhando de umidade, era possível observar pequenas lagrimas escorrendo da alvenaria de tempos em tempos . Do lado de fora o céu cinza diminuía a luminosidade do dia e uma garoa incessante e silenciosa preenchia o ar e deixava todo e qualquer objeto exposto repleto de gotículas de água e irremediavelmente molhado.  Essa atmosfera era proporcionada pela floresta tropical fechada e pela maresia.
Já faz mais de uma década mas eu me lembro bem. Estávamos no inverno, junho ou julho. O litoral de Santa Catarina costuma ser um lugar quente, pelo menos para quem está acostumado ao frio serrano de Curitiba, mas nesse dia estava frio a ponto de eu vestir uma calça comprida e um moletom. Ainda sim estava de chinelo porque sempre me recusei a usar sapatos na praia. A família Duarte Silva estava toda reunida, depois de anos. Nós saímos em dois carros e fomos em direção a Marina do Pontal, na entrada da Baía da Babitonga.
Quando o Seu Orilton Duarte Silva percebeu que seu tumor tratava-se de um câncer agressivo e terminal pediu com a voz embargada para sua esposa, Dona Maria José Duarte Silva,  que seu corpo fosse cremado e as cinzas jogadas na Baía da Babitonga. Tenho certeza que ele imaginava algo bem diferente do que de fato ocorreu no dia de sua cerimônia de cinzas.
Naquele dia o tempo estava ruim e ventava muito. O mar estava batido, cheio de carneirinhos, não conseguiríamos fazer a cerimônia embarcados como queríamos. Assim, subimos em um trapiche em ruínas por uma escada de madeira apodrecida usada pelos pescadores que aproveitavam a estrutura cálida para pescar siris de tarrafa. A maré estava alta então para subir na escada era preciso entrar no mar com água nos joelhos.
A viúva, que tinha dificuldade de locomoção, decidiu observar a cerimônia da areia.
Minha mãe, a filha mais velha do falecido, trazia nas mãos uma caixa de madeira com puxador de ferro. Foi dali de dentro que ela tirou um saco plástico com as cinzas do meu vô aglutinadas como que em uma pedra. 
Já faziam dois anos que meu vô Orilton havia falecido mas sua segunda filha, Mirna, havia emigrado para a França no final da década de 90 e não havia conseguido voltar para o Brasil desde o falecimento até aquele momento. Por viver no hemisfério norte, só conseguiu tirar férias no verão de lá, ou seja, no inverno daqui.
As ondas batiam no trapiche, estourando com força, fazendo barulho e respingando água salgada e espuma.
"Alguém quer dizer algumas palavras?" Minha mãe perguntou, levantando a voz para competir com o barulho do vento e das ondas.
Após um minuto com os parentes se observando em silêncio o filho mais novo, meu tio Fernando, disse "Viestes do pó e ao pó voltarás".
Todos consentimos. Choramos muito nesses dois anos da data que ele havia falecido. E antes disso, nos seis meses que vimos o homem que meu vô era ser aos poucos consumido pela doença e transformado em uma figura quieta, parada, pálida e triste. Dessa forma, quando a família se reuniu naquele dia chuvoso e subimos naquele trapiche no meio do mar revolto, tudo estava molhado, menos os nossos olhos que já estavam secos de tanto chorar.
Minha mãe abriu o saco plástico, pegou um punhado de cinzas e jogou no mar. Depois dela meu tio Fernando que estava mais próximo jogou também. Minha tia Mirna também jogou as cinzas quase simultaneamente ao meu tio José Guilherme, o terceiro filho, que estava muito quieto.
Meu pai, que era mais próximo do sogro do que do próprio pai, também jogou um punhado de cinzas em silêncio.
Não consigo lembrar se minhas irmãs também pegaram as cinzas com as mãos para jogar no mar ou se tiveram receio e preferiram só observar. Mas eu lembro que quando eu fui jogar um punhado de cinzas o vento soprou na minha direção e uma onda estourou no meu pé, jogando as cinzas que eu havia atirado no ar na minha própria direção e cobrindo meu corpo, que já estava molhado pela água do mar e da chuva, de cinzas humanas. A umidade da minha pele, minha roupa e meu cabelo, reteve as cinzas como uma cola.
Fechei os olhos e a boca para que não entrasse pó de cinzas. Minha mão direita também estava coberta de cinzas então usei minha mão esquerda para limpar meu rosto.
Eu podia ver que meus parentes também estavam sofrendo para não serem atingidos pelas cinzas com o vento, mas não sei se mais alguém acabou inalando acidentalmente como aconteceu comigo.
Depois de jogarmos todas as cinzas no mar, descemos do trapiche limpamos o saco plástico e a a caixa de madeira na água salgada. Eu aproveitei para limpar minhas mãos e meu rosto. Jogamos o saco plástico no lixo e enterramos a caixa de madeira, que era biodegradável, na praia de frente da nossa casa.
Sempre que eu vejo o mar, em qualquer lugar do mundo que eu esteja, eu lembro do meu avô.



sábado, 3 de outubro de 2020

I

 I need to leave my phone

cause I can't live in my head

I never wanted to be the one

who is always sick and always sad



sexta-feira, 26 de abril de 2019

Como sempre

Sigo triste como sempre
vou chorando pelos cantos
afogada em meus prantos
por onde o vento sopre
não importa a direção
só chora meu coração


quinta-feira, 21 de março de 2019

Tempo

O outono é um garoto
Empinando pipa no vento
chega sorrindo, maroto
Cheio de vida e de tempo
O inverno é um velho
Vem sem ser chamado
Chega logo em prantos
Com seu cajado curvado
e seus cabelos brancos.

(Fruto de Tipuana. Eleito, por mim, o simbolo do outono curitibano)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

La Vie en Rose

J'aime le gout
Du français dans ma bouche
C'est comme une couche
dans ma langue, surtout
Gin, Campari, Codorniu Rose, Vermouth

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Café da Manhã

Todos os dias eu acordo com a boca amarga por causa dos anti-depressivos. Um dos vários efeitos colaterais da minha medicação é fazer com que eu acorde, todos os dias da minha vida, com um gosto ruim e muito amargo na boca. Todo dia, a primeira sensação que eu sinto é aquele sabor forte e desagradável que vem me receber e anunciar o novo dia que surge.
 Não importa o quanto eu escove os dentes antes de dormir, a quantidade de água que eu tome, fio dental, enxaguante bucal. Não importa o que eu coma da noite, a posição que eu durmo, quanto tempo eu fico na cama, todo dia eu acordo com o mesmo gosto amargo na boca. Como se eu tivesse fumado um maço de Luke Strike sem filtro, tivesse feito um bochecho com óleo de rícino e engolido tudo isso alguns minutos antes de acordar.
É um pouco contraditório que justamente a medicação que foi feita para recuperar minha vontade de viver tenha um efeito tão desencorajador.
Como que alguém, que já não tem vontade de acordar, é recebido com esse presságio assustador como se todo dia passasse pela terrível dor dos recém-nascidos que sentem o ar queimando nos pulmões com a primeira respiração? Como que se espera que essa pessoa saia da cama para viver as mesmas dores, desamores e desabores que sente todos os dias incessantemente e encontra no sono um refugio onde pode sucumbir ao entorpecente que anula todo e qualquer sentimento ou pensamento e te joga em algo próximo ao limbo,  a doce condição de não existência, tão semelhante ao alivio da morte?
Basta que eu recupere minha consciência, sem nem abrir os olhos, sei que estou viva por que minha boca está coberta de um ranço amargo.
Não posso mais retornar ao doce mundo dos sonhos por que a sensação é tão ruim e inquietante que em poucos minutos me enrolando na cama torna-se náusea.
Eu sempre saio da cama louca pra tirar aquele gosto impregnado no meu trato digestivo. Nessa hora meu corpo está pedindo por algo doce e suave para contrastar com a desgraça que se instaurou aqui dentro. Acontece que lá em casa só eu como doce no café da manhã. Todos os meus familiares são adeptos dos salgados. Omelete, pão com manteiga, café com leite. É isso que tem na minha casa de manhã. Um bolinho de fubá ou uma cuequinha virada são raridades, normalmente não posso contar com sua presença.
Por esse motivo é comum me ver cedo na cozinha de manha cedinho, com o cabelo descabelado e olheiras fundas, arrastando o liquidificador de um lado para o outro e untando frigideiras para que eu possa satisfazer minha necessidade por algo doce com uma rabanada, uma panqueca, uma vitamina de banana, qualquer coisa doce.
Quem acorda depois de mim acaba comendo antes por que eu estou ocupada na função de forjar meu famigerado docinho matinal.
Eu estou exausta, atrazada, com o pijama sujo de comida e ali batalhando para encontrar motivos para eu viver.
Talvez esse seja o objetivo do anti-depressivo no fim das contas.
Se meu anti-depressivo me fizesse acordar com um gostinho doce de bolo de limão na boca, eu não teria que me arrastar todo dia da cama pra sujar as mangas do pijama de óleo ficar com as mãos azedas de gema de ovo tentando tirar casquinhas de ovo quebrado de dentro da minha receita. Eu estaria na minha cama, com gostinho de limão, me preparando para encarar o mundo quando me sentisse pronta.
Mas, não, minha boca está cheia de chorume e eu preciso sair da cama, mesmo sem estar preparada. Assim como na nossa vida inteira nós nunca estaremos preparados pra nada. Claro, o remédio tirou minha vontade incontrolavel de morrer, feito que não pode ser menosprezado. Mas muito além de tirar a vontade de morrer, não é o remédio que vai me devolver a vontade de viver. Sou eu mesma. Saindo da minha cama. Me sujando na cozinha. Me queimando na frigideira. Essa é a vida. Temos que sair da cama e se sujar todo dia para arranjarmos nosso proprio motivo de sair da cama.