Blog pessoal da Carol. Mantenho o blog desde 2009 para compartilhar histórias e sentimentos que eu não sei como lidar.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Qual o preço do quilo?
terça-feira, 14 de abril de 2026
Sanpaku
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
29
Tristeza não conhece abrigo,
Felicidade tem seu termo.
Há um silêncio antigo
Que em mim se faz eterno.
Desisti de buscar sentido,
Não há vontade nem governo.
Essa dor segue sem destino,
Como um rio imenso.
Num oceano sem fronteira,
Passam memórias, passam planos.
Só não se vai essa geleira,
Que há de cessar com meus enganos.
quinta-feira, 20 de março de 2025
Não tem um dia ruim que não possa piorar com uma caneca da café preto
O brasileiro é viciado em cafeína. Essa cafeína vem em várias formas, seja no chimarrão do Sul, no guaraná do Norte ou no cafezinho que se toma em todas as partes. Nós gostamos tanto de café que, para nós, café é sinônimo de refeição. Ao menos duas refeições do dia do brasileiro são batizadas em homenagem à bebida: o "café da manhã" e o "café da tarde". Mas isso não significa que o almoço não seja tradicionalmente encerrado com um cafezinho ou que os mais corajosos (como minha avó) não tomem uma grande caneca de café com leite durante o jantar.
Existem muitos estudos que exploram a relação do consumo brasileiro com o café. Um estudo da revista Superinteressante mostra que, quanto mais filhos o brasileiro tem, maior é o seu consumo de café. A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) fez um estudo em que ficou demonstrado que 46% dos brasileiros bebem entre três e cinco xícaras diariamente, e 29% consomem mais de seis xícaras de café por dia. Outro estudo, feito pelo Instituto Agronômico (IAC) em parceria com a UNICAMP, concluiu que 61% dos consumidores afirmam que o café melhora o humor e a disposição, destacando a importância da bebida no bem-estar diário.
Eu não posso falar por todos os brasileiros, mas acredito que minha relação com o café seja parecida com a de muitas outras pessoas. Café, para mim, é um instrumento de trabalho. Eu não gostava (gosto?) de café. Antes de entrar no mercado de trabalho, quando eu precisava ficar acordada, apelava para outras fontes de cafeína: chá verde, chá-mate, guaraná, energético... Mas quando comecei meu primeiro estágio, criei o hábito de tomar café por ele ser de fácil acesso.
Eu acordava cedo para ir para a faculdade, passava a manhã estudando e, depois do almoço, ia estagiar na Promotoria de Proteção à Saúde Pública. E eu tinha muito sono. Era muito difícil ficar acordada, lendo letras miúdas em um lugar escuro e silencioso sem ter sono. Por isso, comecei a tomar o café da promotoria. Era um café bem ruinzinho, comprado por licitação e feito às pressas com água fervendo. Eu misturava esse café com quantidades absurdas de leite em pó (também comprado por licitação) em um copo de poliestireno e criava um creme fumegante para me manter acordada até a hora de ir embora.
Como é natural, com o tempo minha resistência ao café foi aumentando, assim como a quantidade de café que eu tomava. Atualmente, meu consumo de café é limitado a uma xícara de café com leite assim que eu acordo e mais uma xicrinha de café preto, sem açúcar, depois do almoço. Não porque eu goste particularmente do gosto, mas porque, sem esse up da cafeína, parece que não tenho energia para enfrentar meus compromissos. É uma relação de dependência. Alguns dias particularmente ruins pedem por uma grande caneca de café preto, tal qual uma festa ruim pede por um grande copo de destilado que vai te manter ocupado e anestesiado até poder voltar para casa.
Mas a que custo? O café, além de não ser exatamente agradável ao paladar, também faz mal para o estômago e para a cabeça. Tremedeira, crise de ansiedade, azia, dor de estômago e gosto ruim. Talvez essa ruindade toda sirva para nos distrair da desgraça que é a vida do trabalhador brasileiro. Como é que dizem? Que o remédio para dor de cabeça é uma martelada no dedo?
No fim do dia, sobra no fundo da caneca aquele último gole de café frio que seu corpo rejeita. Um desfecho amargo para um dia ruim.
domingo, 1 de dezembro de 2024
Pinheirinho Decolonial do Caos
Caso você não tenha percebido até hoje, nós aqui em terras tupiniquins também temos nossa data para ascender fogueiras, comer alimentos calóricos e dançar de barriga coladinha. São as festas juninas/julinas, sendo que o dia de São João marca nossa noite mais longa do ano. Não é a toa que o ano-novo tupi-guarani ocorre justamente em agosto, o Ara Pyaú (tempo novo). O ano novo e o natal são datas trazidas pelos colonizadores já sincretizadas com uma mensagem cristã bastante deturpada (estudos bíblicos apontam que jesus nasceu em março, não em dezembro). Os cristãos não satisfeitos em apagar os significados natalinos também apagaram os significados das festas juninas/julinas.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2022
Criança Gótica
Sabe aquele momento que você está refletindo a respeito de coisas que aconteceram a muito tempo atrás e tem uma realização que muda completamente sua perspectiva sobre memórias antigas? Talvez você não tenha isso mas eu tenho o tempo todo. Talvez sejam muitos anos fazendo análise, talvez seja só porque sou uma pessoa nostálgica.
Esses dias eu estava refletindo sobre a minha infância . Eu sempre me retratei nas minhas memórias como uma criança descabelada e selvagem, que gostava de andar descalça, subir em árvores, comer plantas do chão e brigar com os outros. Acho que grande parte disso se da ao fato de eu ser uma adulta notoriamente descabelada que gosta de andar descalça, subir em árvores, comer plantas do chão e vem perdendo gradualmente o gosto por brigar (os últimos quatro anos esgotaram minhas reservas de indignação).
Foi então que eu tirei um momento para refletir não como eu me vejo como criança mas como as outras crianças provavelmente me viam. Nesse momento eu percebi que eu era uma criança gótica. E explico o porquê:
Eu não fiz amigos na escola até a sexta série do ensino fundamental, na maior parte do tempo eu estava sozinha. Assim, meus recreios da primeira série até a sexta foram de isolamento nos 150 mil m² de Colégio Medianeira. A maior parte das crianças se dedicava a prática de esportes nesse meio tempo (meninos jogavam futebol, meninas pulavam corda e ambos jogavam caçador) e alguns grupos se reuniam para conversar e brincar de "faz de conta" e outras brincadeiras do gênero. O pátio ficava lotado de crianças correndo para todos os lados, subindo nos brinquedos e brincando. Até hoje eu sinto um enorme desconforto ao lembrar do concreto colorido com amarelinhas, uma rosa dos ventos e um mapa-múndi. Eu não era uma dessas crianças. Enquanto todos se reuniam para brincar nesse pátio eu me afastei nesses cinco anos para o limite até onde me era permitido ir. Para lá do Bosque 1, no início do Bosque 2, era o limite de onde as crianças do primário podiam ficar e era para lá que eu ia.
Você pode estar se perguntando "Mas Carol o que tem de gótico nisso? Você era uma criança antissocial, nada mais". Calma, você vai entender. A questão é que o inicio do Bosque 2 naquela época não era nada mais nada menos que o túmulo do Padre Oswaldo Gomes, o fundador do Colégio Medianeira. A história que eu conhecia é que o Padre tinha morrido em um acidente de avião e naquele túmulo de granito rosa e preto estava sepultado seu corpo. Mais sinistra ainda era a imagem dourada de Nossa Senhora ali exposta, toda amassada, com o rumor de que o Padre segurava a Santa na hora da morte. O tipo de coisa que só os católicos e seu insaciável culto a morte poderiam colocar em uma escola. E o tipo de ambiente em que a pequena Carol de seis anos se sentiu confortável em passar os seus intervalos de meia hora.
Quando eu paro para refletir eu não consigo entender se eu passava tanto tempo lá para não ficar junto de outras crianças porque eu não gostava delas ou se eram elas que não gostavam de mim. Provavelmente um pouco dos dois. A verdade é que muitas crianças tinham medo de ir até o túmulo do Padre. Por algum motivo eu não tinha esse medo. Eu não era uma criança corajosa, com frequência tinha pesadelos e ia dormir com minha mãe. A bruxa da Branca de Neve e zumbis eram o meu maior terror. Por algum motivo o túmulo do Padre não me despertava esse sentimento. Talvez fosse porque meus pais me levassem em cemitérios desde muito pequena. Talvez meu medo de ter que interagir com outras crianças fosse maior que o medo que eu deveria sentir do túmulo. Provavelmente um pouco dos dois.
Eu eventualmente tinha outras aventuras, até porque a vida toda tive que ir para aulas de reforço no contraturno, quando a escola estava vazia e eu me sentia mais a vontade para explorar outros ambientes, como a biblioteca e a sala da direção quando não tinha ninguém. A diretora deixava a porta destrancada, mas pouca gente sabia disso. Quando eu não estava em movimento pelas minhas andanças pela escola vazia (inclusive durante o período de aula quando eu supostamente deveria estar no banheiro ou na enfermaria) eu estava no túmulo. Se alguém quisesse me procurar, pode ter certeza que ia encontrar a pequena Carol sentada no banco ou até mesmo na beira do túmulo do Padre. Normalmente comendo um bolinho de chocolate ou um pacote de batatas chips.
Se você encontrasse a pequena Carol nessa situação é capaz que ela ficasse por lá alguns minutos esperando você ir embora. Caso contrário ela quem iria levantar e ir embora de mal humor.
Por isso digo que eu era uma criança gótica.
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| (P. Oswaldo Gomes, o homem cujo túmulo abrigou parte da minha infância.) |
quarta-feira, 23 de novembro de 2022
Tome Jeito
Tenho tanta coisa para fazer
E eu nem sei mais o que pensar
Tome jeito nessa vida, mulher!
Então parei para tomar um ar
E eu juro que não é preguiça!
É que eu não sei nem por onde começar
Minha cabeça está uma bagunça!
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
Essa história não é sobre a Alemanha
Com 84 anos e a saúde precária, Hindenburg foi convencido a candidatar-se a Presidente para as eleições de 1932, por ser considerado o único capaz a fazer frente a Adolf Hitler nas urnas. Hindenburg estava aposentado da vida política, pois já tinha governado a Alemanha em 1925, já com a idade avançada. Ele ganhou as eleições de 1932 no segundo turno. Hindenburg pouco podia fazer por ter a minoria no congresso.
Hindenburg odiava Hitler, mas mesmo assim foi considerado culpado por muitos pela sua ascensão. Isso porque Hindenburg foi presidente durante a República de Weimar, um período de adaptação da Alemanha que estava dando seus primeiros passos no mundo democrático. Ainda sim, fortemente influenciada pelas forças militares e por grandes proprietários de terra da antiga nobreza imperial.
As circunstâncias em que foi criada a República de Weimar foram muito especiais. Prestes a perder a Primeira Guerra Mundial, a liderança militar alemã, altamente autocrática e conservadora, atirou o poder para as mãos dos democratas, em particular o SPD, que acabou por ter de negociar a paz. Durante aquela época nenhum partido foi capaz de obter a necessária maioria parlamentar que o permitisse governar. Os desacordos em relação às políticas econômicas, bem como a crescente polarização política entre os partidos de direita e de esquerda, impediam a formação de uma coalizão operacional e, por esta razão, após junho de 1930 uma sucessão de primeiros-ministros abdicaram tornando o ambiente político, social e econômico muito instável.
Foi naquele período de instabilidade que o Partido Nazista emergiu de
sua obscuridade como partido pequeno para a proeminência nacional. O
Partido Nazista conseguiu aumentar drasticamente seu apoio popular ao se
promover como um movimento de protesto contra a corrupção e a
ineficácia do "sistema" de Weimar.
Hindenburg acabou por nomear Hitler como Chanceler da Alemanha em Janeiro de 1933 que ascendeu ao poder dentro da constitucionalidade alemã da época.
A perseguição e a violência contra judeus era clara. Mas judeus viviam em um território que não era frequentado pela maioria do povo Alemão e muitos deles se quer conheciam um judeu. Apenas 1% da população alemã era judia. Sem contar que judeus eram perseguidos desde a idade média então pode se dizer que a maioria dos alemães não se importavam. Quem protegia judeus também era morto. A verdade é que o Estado Alemão comandado por uma minoria rica tinha muito interesse na riqueza dos judeus, que por serem perseguidos durante muitas décadas tinha o costume de guardar ouro em casa por não poder contar com a segurança de um banco ou de um cartório.
Não eram só os judeus que eram perseguidos. Ciganos e pessoas de pele escura no geral, comunistas, feministas e LGBT também tiveram que submeter-se ao silencio ou sofrer violência na rua. Quem habitava a Alemanha nazista mas não compactuava com seus ideais pode não ter perdido sua vida literalmente, mas perdeu todos os anos de vida e juventude para o medo, para o silêncio e para a fome.
Indústrias como a Bayer, Volkswagen, BMW, Mercedes e até mesmo a Coca-Cola, enriqueceram com o Holocausto. Por coincidência (ou não) a mesma Bayer e a mesma Coca-Cola estão enriquecendo com a invasão de terras indígenas pelo garimpo e pelo agronegócio. Mas indígenas vivem em um território que não é frequentado pela maioria do povo Brasileiro e muitos deles se quer conhecem um indígena. Apenas 5% da população brasileira é indígena. Sem contar que indígenas são perseguidos desde a 1500 então pode se dizer que a maioria dos Brasileiro não se importa. Quem protege indígenas também é morto.
E cá estamos perdendo nossos anos de vida e juventude para o medo, para o silêncio e para a fome.
terça-feira, 6 de setembro de 2022
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
Cupuaçu me faz chorar
Voltei ontem da minha terceira viagem para a Amazônia. Quem me conhece um pouco, ou quem lê meu blog, sabe que eu tenho um amor profundo por florestas. Árvores, pedras, fungos e animais tem a capacidade de gerar uma descarga enorme de endorfina no meu corpo. Água corrente então, me desperta um êxtase que beira o amor erótico (no sentido platônico da palavra). Viajar para a Amazônia para mim é sempre uma experiência maravilhosa, que eu considero infinitamente superior a viajar para Disney ou para Paris.
A primeira vez que eu estive na Amazônia foi com minha melhor amiga, Eduarda. Ela não tem irmãos e, sabendo do meu amor por florestas, me convidou muito gentilmente para a festa de oitenta anos de sua vó, Dona Socorro, lá em Manaus. A família materna da Duda é de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre. Não são indígenas mas são de uma realidade totalmente diferente da minha e foi um grande choque cultural conhecer e interagir com eles. Ainda sim, foi maravilhoso porque são pessoas muito calorosas e receptivas. O padrinho da Duda, apelidado carinhosamente de tio Jejé, me serviu uma infinidade de peixes, frutos e farinhas que eu nunca teria capacidade de memorizar em tão pouco tempo. Ele e o tio Junior nos levaram para conhecer parques, mercados, o rio Negro, algumas beiradas da floresta e inclusive uma aldeia de indígenas Tukano que recebe turistas. Foi a esposa do tio Junior, Adriana, que me deu cupuaçu para eu experimentar pela primeira vez em um delicioso mousse. Eu sou eternamente grata a todos eles e provavelmente eles nunca vão saber o quanto a receptividade deles foi importante para mim e como aquela experiência me marcou pelo resto da vida.
A segunda vez que eu fui a Amazônia foi a convite da Universidade Católica de Rondônia. Mais especificamente um convite feito ao meu pai, para participar de um evento, feito pelo coordenador do curso de direito, Prof. Pedro Abib, e pelo seu pai Prof. Dr. Fabio Rychecki Hecktheuer, o reitor. Meu pai e o Prof. Dr. Carlos Frederico Mares de Souza Filho ambos professores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná foram convidados pelo reitor para ministrar uma série de palestras.
(aqui acho necessário abrir um espaço para falar da honra que foi conviver por poucos dias com o Professor Carlos Marés. Poderia falar que ele foi Secretário de Cultura do Município de Curitiba; Procurador Geral do Estado do Paraná, Presidente da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, Procurador Geral do Instituto nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, Presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Presidente do Banco do Desenvolvimento do Extremo Sul – BRDE, Presidente do Instituto Socioambiental – ISA, Membro da Junta Directiva do Instituto Latinoamericano de Servicios Legales Alternativos - ILSA, entre outros, que esses títulos todos iam soar muito interessantes. Sinceramente? Nada disso me importa. O que realmente me inspira nesse homem é que ele foi preso e torturado por militares durante a ditadura no Brasil, por defender os direitos humanos, entre eles o direito dos povos indígenas, foi mandado para o exilio, sobreviveu a tudo isso e voltou para contar a história).
Em Porto-Velho eu estava em casa, diferente do sentimento de estranheza que eu tive em Manaus. A cidade era quase toda habitada por sulistas que emigraram para o norte. A Universidade Católica e a casa do professor Pedro me eram muito familiares. A família do professor era de Caxias do Sul, gaúchos iguais ao meu pai, que é de Santa Rosa. Eram católicos fervorosos adeptos da teologia da libertação, sendo pessoas envolvidas com causas sociais e caridade, como eu fui educada a ser. Eles exerciam a docência e meus pais ambos são doutores e professores universitários. Ainda por cima a mãe do professor, Marcia Abib Hecktheuer, era de ascendência libanesa, como a minha mãe.
Eu esperava participar de um evento acadêmico como muitos outros que já havia participado, inclusive em outros países. Fui surpreendida por um evento multicultural que contou com a presença marcante de membros do povo Karitiana. O professor Pedro Habib convidou os indígenas, alguns deles alunos da universidade, para fazer uma apresentação a respeito dos saberes tradicionais que incluiu dança e canto.
O Professor Pedro quando soube que os Karitianas ficariam na casa de passagem indígena da cidade logo acionou seus contatos na igreja católica e arranjou um centro de retiro onde os convidados se sentiriam mais bem recebidos. Para quem não sabe as casas de passagem da FUNAI são lugares decadentes e a grande maioria esta fechada por ser absolutamente insalubre. Os Karitiana ficaram agradecidos e retribuíram a sensibilidade do professor com o presente mais precioso que eles poderiam ter concedido: Convidaram o professor Pedro para conhecer sua aldeia na floresta Amazônica rondoniense. E bom anfitrião que é, convidou seus colegas sulistas para desfrutar desse privilégio.
O professor Carlos Marés não quis nos acompanhar, ele já havia conhecido muitas aldeias. Sendo assim só restou eu de paranaense entre os gaúchos na aventura amazônica. Foram quase quatro horas de viagem. Uma hora e meia de rodovia pavimentada em meio a devastação do pasto do agronegócio até adentrarmos a reserva indígena Karitiana. O professor Pedro, meu pai, Marcia e eu enfrentamos duas horas em uma estrada de terra alagada dentro do território indígena, tomando chimarrão em meio aos buracos, trancos e barrancos.
Os Karitiana são um povo especial, como todo povo originário. Foram quase extintos na década de 60 alvo da violência de pecuaristas e, sobretudo, de doenças trazidas pelos brancos. Eles foram afastados de seu território original, hoje ocupado por fazendas de gado e obrigados a adentrar o território do extinto povo Joari, pois este povo também falava a língua Arikém. Atualmente os Karitiana são o último povo no planeta que ainda sabe esse idioma. Como se não bastasse os Karitiana também foram alvo de biopirataria em 1987 e novamente em 1996 onde "cientistas" estadunidenses se passando por médicos roubaram material genético de toda aldeia alegando serem profissionais de saúde que trariam medicamentos para eles. Este material está estocado em laboratórios das universidades de Stanford e Yale nos Estados Unidos. Ocorre que para esses povos o sangue possui uma cosmologia própria, pois a alma está no sangue e deve ser sepultado quando fora do corpo. A existência desse sangue em prateleira de uma universidade é uma fonte de sofrimento psíquico e espiritual.
Além dessas mazelas os Karitiana sofreram com outro problema trazido pelo homem branco, no final da década de 70, auge da ditadura militar e genocídio indígena do último século, um casal de missionários neopentecostais estadunidenses adentrou a aldeia para estudar Arikém e posteriormente catequisar os indígenas. Coincidentemente alguns anos antes do roubo de material genético. O resultado dessa intervenção: a aldeia foi divida em dois. De um lado do rio estão os indígenas evangélicos, liderados pelo cacique que também é pastor. Do outro lado do rio, o povo que segue o pajé e os ritos tradicionais.
Depois de toda essa série de abusos, não é de se admirar que esse povo seja receoso quanto a entrada de brancos em seu território. Nós mesmos fomos surpreendido por invasores pescando dentro da área protegida da reserva no nosso caminho para a aldeia. Assim, fomos para lá sabendo da honra que é ser escolhido entre os brancos para conhecer esse território sagrado.
Chegando na aldeia eu me aproximei da Cristiane Karitiana, uma das filhas do cacique pastor. Ela falava um português muito tímido mas parecia animada em me mostrar a aldeia. Me mostrou seu macaco aranha de estimação, uma paca domesticada, araras, papagaios, gatos e cachorros. Conheci a varanda do seu irmão mais velho. A cunhada de Cristiane estava preparando almoço em uma panela de pressão. "O cheiro está bom, o que estão fazendo?" "Macaco" primeiro eu ri, depois percebi que estavam mesmo preparando macaco e meu riso se converteu para um sorriso de constrangimento. Naquele momento outras três adolescentes se aproximaram para falar com Cristiane. Falavam em Arikém e olhavam para mim. Eu consegui distinguir uma palavra em português no meio da conversa. "Apresentação". Nessa hora eu disse "Sim, eu assisti a apresentação". A Cristiane riu e me disse "elas estão dizendo que seus olhos na apresentação estavam assim" e fez um sinal com os dedos no rosto, indicando que meus olhos estavam arregalados na apresentação. Eu transpareci no meu rosto a surpresa e o fascínio de presenciar a cultura originaria em um auditório da universidade de direito.
Andamos pela aldeia, o professor Pedro tomou um banho de rio com as crianças Karitiana que me deixou morrendo de inveja. Eu não podia entrar no rio, iria direto da lá para o aeroporto.
Agora, por que cupuaçu me faz chorar?
Pois bem, eu já disse a você que eu experimentei cupuaçu pela primeira vez em Manaus. O ocorre que a primeira vez que eu vi a fruta e a árvore de cupuaçu foi dentro da aldeia Karitiana. Estava andando com meu pai, o cacique, o professor Pedro e Cristiane. Foi quando avistei a árvore repleta de frutos, muitos no chão e comentei com meu pai "pai, eu acho que é cupuaçu" e meu pai, que me ensinou o amor por colher o próprio alimento, se aproximou muito interessado para recolher algumas frutas do chão e examina-las mais de perto.
Nesse momento um senhorzinho se aproximou. Era um senhor na casa dos setenta ou oitenta anos, pequeno, com olhos cerrados e brilhantes. Veio andando com os braços para trás e olhando para meu pai com um sorriso falou algo em Arikém que nós não entendemos. A Cristiane traduziu para mim "Vocês gostam de cupuaçu? Podem levar, tem bastante".
Foi então que o cacique nos explicou que aquele senhorzinho era seu sogro e foi cacique antes dele. Levou algum tempo para eu entender que esse senhorzinho foi o cacique que viu seu povo ser morto e expulso do território. Por nós, sulistas. Não foram os portugueses, os espanhois ou até mesmo os estadunidenses que dizimaram o povo Karitiana. Fomos nós. Claro que eu, o Professor Pedro, meu pai ou a Marcia nunca mataríamos ninguém nem roubaríamos suas terras. Mas quem somos nós? Membros da universidade fundada para atender os filhos dos fazendeiros e dos moradores da cidade que vive das migalhas dos mesmos fazendeiros. Gente que derruba a floresta para comer carne de boi. A floresta onde os Karitianas vivem. E é claro que o velho cacique sabia disso. Não sabia que éramos da universidade, mas sabia que éramos sulistas. A cuia de chimarrão na nossa mão estava lá para comprovar de maneira inegável de que éramos sulistas.
Levaram meses para eu conseguir absorver essa experiência e esse momento único na minha vida. Ainda estou absorvendo, para ser sincera. Aquele senhorzinho é o único sobrevivente de um etnocídio que eu conheci na minha vida. Aquele senhor, pelos meus cálculos, viu o estilo de vida que foi ensinado a ele pelos seus pais e avós serem destruídos ao longo da sua vida. Foi expulso de sua terra natal onde aprendeu a nadar, a caçar e a cultivar a terra. Viu quase todo seu povo morrer. Teve seu sangue roubado, sua alma roubada. Viu seu povo ser dividido por uma religião de fora. Por pessoas de pele branca, estatura alta, olhos claros que falam português e tomam chimarrão, assim como eu e meu pai.
Eu olho torto para pessoas que estacionam o carro na restinga que fica na rua da minha casa da praia.
Não importa o quanto eu pense no assunto eu nunca vou entender de verdade aquele sorriso contido e aquelas palavras em Arikém "Vocês gostam de cupuaçu? Podem levar, tem bastante".
É por isso que hoje em dia cupuaçu me faz chorar.
| Eu saboreando um sorvete de cupuaçu em Belém do Pará. |
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
terça-feira, 24 de agosto de 2021
Longa noite
Rolando na cama
em uma noite insônia
numa dor tão intima
de infinita agonia
com aperto no peito
presa em um pensamento
o mundo esta acabando
comigo aqui dentro
mas não agora
na noite insônia
não é a hora
quem sabe amanhã
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
Rua Canário
Era uma manhã de verão como muitas outras. O sol estava brilhando alto, havia uma sinfonia de passarinhos cantando e o mato estava impregnando o ar com um aroma verde e vivo. A casa da Rua Canário era pequena e sempre estava cheia de gente. Era uma casa térrea com o piso todo de lajota de cerâmica vermelha daquelas ásperas, antigas. Os móveis eram feitos de palha trançada e tinham cheiro de guardado. O jardim de trás era grande, haviam três sombreiros plantados por lá, os muros eram cobertos de unha de gato e uma trepadeira de alamanda amarela crescia solitária bem aos fundos do jardim. O jardim da frente era ocupado principalmente por uma varanda onde estendíamos até cinco redes de uma vez só. Um dos problemas frequentes da varanda era o guano dos morcegos que deixava a parede que ia de encontro ao teto pintada de vermelho, devido ao fruto dos sobreiros. Aquela varanda dava de frente para um pequeno jardim com um sombreiro plantado e uma cerca viva de hibiscos carmim. Ali na frente era possível observar cambacicas de barriga amarela com suas mascaras pretas bicando os hibiscos, uma profusão de beija-flores coloridos e de todos os tamanhos além de, claro, os canarinhos-da-terra amarelinhos de testa alaranjada que tomavam banho na estrada de terra esburacada da frente da casa. Eles costumavam ficar no portão de ripas de madeira, que devia ter meio metro de altura, espiando para dentro de casa enquanto eu espiava eles da varanda.
Como de costume eu tomei um copo de nescau e comi duas fatias de pão, uma com manteiga e outra com mel. Esse café da manhã era o suficiente para me manter em uma manhã ativa nos entornos do balneário dos Amigos do Banco Bamirindos Uirapuru, ou ABU, para ser mais simples.
De manhã costumávamos ir todos juntos para a praia. Meus avós, meus pais, minha tia Mirna, meus dois tios, minha irmã mais velha e eu.
Para ir a praia saíamos munidos de um guarda-sol algumas cadeiras e obviamente, um par de baldinhos com pazinhas de plástico para fazer castelos de areia. Saiamos da casa e seguíamos na rua canário onde tínhamos que cruzar com mais duas estradas de terra antes de encontrar uma restinga vasta, com salsa da praia se alastrando pelo chão cheia de flores roxas e tocas de coruja buraqueira que estavam sempre por ali, piando para quem passava. Havia um campo de futebol de areia e um quiosque também, mas eu não frequentava muito esses lugares.
Depois de pular a areia fofa escaldante que cozinhava a sola do pé, chegávamos a praia onde uns bons trinta metros de areia davam para o mar itapoense de água escura e ondas baixas e desordenadas.
Foi naquele dia que meu avô pegou na minha mão e caminhou comigo até o mar. Meu vô era um homem baixo e largo. Tinha a cabeça grande e quadrada, o cabelo castanho bem grosso penteado pra trás. Tinha o nariz quebrado, grudado no rosto, caído e largo. Seus olhos eram acinzentados e semicerrados pela idade. A pele do rosto e braços era avermelhada enquanto a da barriga era branca. Por falar na barriga ela era proeminente e possuía uma impressionante cicatriz vermelha que vinha do meio do peito até o umbigo. Ele me dizia que ficou com aquela cicatriz por que ele comia sem lavar as mãos quando era criança então toda a sujeira se acumulou e virou uma pedra na sua barriga que ele teve que fazer uma cirurgia para tirar. Com o tempo eu soube que ele tirou uma pedra da vesícula e naquela época as cirurgias eram bem mais invasivas.
Meu vô me levou para dentro do mar pela mão. Conforme ia ficando mais fundo as ondas iam batendo e ele puxava meu braço para que minha cabeça ficasse sobre as ondas. Até que eu não conseguia mais encostar o pé no chão. Então ele me pegou no colo e me levou até a arrebentação parar, onde o mar ela calmo.
La, ele me colocou deitada na água e falou para eu encher minha barriga com ar. Para eu deixar meus braços, pernas e cabeça moles. E foi assim, em poucos minutos eu estava boiando e meu avô levantou as mãos para que eu visse que estava boiando sozinha. Daquela forma, quando eu estivesse no mar, mesmo que uma onda me puxasse, eu não me afogaria. Desde então, eu não tenho medo do mar.
Sempre que eu vejo o mar, em qualquer lugar do mundo que eu esteja, eu lembro do meu avô.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
Babitonga
sábado, 3 de outubro de 2020
I
I need to leave my phone
cause I can't live in my head
I never wanted to be the one
who is always sick and always sad
sexta-feira, 26 de abril de 2019
Como sempre
quinta-feira, 21 de março de 2019
Tempo
Empinando pipa no vento
chega sorrindo, maroto
Cheio de vida e de tempo
O inverno é um velho
Vem sem ser chamado
Chega logo em prantos
Com seu cajado curvado
e seus cabelos brancos.
![]() |
| (Fruto de Tipuana. Eleito, por mim, o simbolo do outono curitibano) |
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
La Vie en Rose
quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Café da Manhã
Não importa o quanto eu escove os dentes antes de dormir, a quantidade de água que eu tome, fio dental, enxaguante bucal. Não importa o que eu coma da noite, a posição que eu durmo, quanto tempo eu fico na cama, todo dia eu acordo com o mesmo gosto amargo na boca. Como se eu tivesse fumado um maço de Luke Strike sem filtro, tivesse feito um bochecho com óleo de rícino e engolido tudo isso alguns minutos antes de acordar.
É um pouco contraditório que justamente a medicação que foi feita para recuperar minha vontade de viver tenha um efeito tão desencorajador.
Como que alguém, que já não tem vontade de acordar, é recebido com esse presságio assustador como se todo dia passasse pela terrível dor dos recém-nascidos que sentem o ar queimando nos pulmões com a primeira respiração? Como que se espera que essa pessoa saia da cama para viver as mesmas dores, desamores e desabores que sente todos os dias incessantemente e encontra no sono um refugio onde pode sucumbir ao entorpecente que anula todo e qualquer sentimento ou pensamento e te joga em algo próximo ao limbo, a doce condição de não existência, tão semelhante ao alivio da morte?
Basta que eu recupere minha consciência, sem nem abrir os olhos, sei que estou viva por que minha boca está coberta de um ranço amargo.
Não posso mais retornar ao doce mundo dos sonhos por que a sensação é tão ruim e inquietante que em poucos minutos me enrolando na cama torna-se náusea.
Eu sempre saio da cama louca pra tirar aquele gosto impregnado no meu trato digestivo. Nessa hora meu corpo está pedindo por algo doce e suave para contrastar com a desgraça que se instaurou aqui dentro. Acontece que lá em casa só eu como doce no café da manhã. Todos os meus familiares são adeptos dos salgados. Omelete, pão com manteiga, café com leite. É isso que tem na minha casa de manhã. Um bolinho de fubá ou uma cuequinha virada são raridades, normalmente não posso contar com sua presença.
Por esse motivo é comum me ver cedo na cozinha de manha cedinho, com o cabelo descabelado e olheiras fundas, arrastando o liquidificador de um lado para o outro e untando frigideiras para que eu possa satisfazer minha necessidade por algo doce com uma rabanada, uma panqueca, uma vitamina de banana, qualquer coisa doce.
Quem acorda depois de mim acaba comendo antes por que eu estou ocupada na função de forjar meu famigerado docinho matinal.
Eu estou exausta, atrazada, com o pijama sujo de comida e ali batalhando para encontrar motivos para eu viver.
Talvez esse seja o objetivo do anti-depressivo no fim das contas.
Se meu anti-depressivo me fizesse acordar com um gostinho doce de bolo de limão na boca, eu não teria que me arrastar todo dia da cama pra sujar as mangas do pijama de óleo ficar com as mãos azedas de gema de ovo tentando tirar casquinhas de ovo quebrado de dentro da minha receita. Eu estaria na minha cama, com gostinho de limão, me preparando para encarar o mundo quando me sentisse pronta.
Mas, não, minha boca está cheia de chorume e eu preciso sair da cama, mesmo sem estar preparada. Assim como na nossa vida inteira nós nunca estaremos preparados pra nada. Claro, o remédio tirou minha vontade incontrolavel de morrer, feito que não pode ser menosprezado. Mas muito além de tirar a vontade de morrer, não é o remédio que vai me devolver a vontade de viver. Sou eu mesma. Saindo da minha cama. Me sujando na cozinha. Me queimando na frigideira. Essa é a vida. Temos que sair da cama e se sujar todo dia para arranjarmos nosso proprio motivo de sair da cama.
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