quinta-feira, 20 de março de 2025

Não tem um dia ruim que não possa piorar com uma caneca da café preto

O brasileiro é viciado em cafeína. Essa cafeína vem em várias formas, seja no chimarrão do Sul, no guaraná do Norte ou no cafezinho que se toma em todas as partes. Nós gostamos tanto de café que, para nós, café é sinônimo de refeição. Ao menos duas refeições do dia do brasileiro são batizadas em homenagem à bebida: o "café da manhã" e o "café da tarde". Mas isso não significa que o almoço não seja tradicionalmente encerrado com um cafezinho ou que os mais corajosos (como minha avó) não tomem uma grande caneca de café com leite durante o jantar.

Existem muitos estudos que exploram a relação do consumo brasileiro com o café. Um estudo da revista Superinteressante mostra que, quanto mais filhos o brasileiro tem, maior é o seu consumo de café. A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) fez um estudo em que ficou demonstrado que 46% dos brasileiros bebem entre três e cinco xícaras diariamente, e 29% consomem mais de seis xícaras de café por dia. Outro estudo, feito pelo Instituto Agronômico (IAC) em parceria com a UNICAMP, concluiu que 61% dos consumidores afirmam que o café melhora o humor e a disposição, destacando a importância da bebida no bem-estar diário.

Eu não posso falar por todos os brasileiros, mas acredito que minha relação com o café seja parecida com a de muitas outras pessoas. Café, para mim, é um instrumento de trabalho. Eu não gostava (gosto?) de café. Antes de entrar no mercado de trabalho, quando eu precisava ficar acordada, apelava para outras fontes de cafeína: chá verde, chá-mate, guaraná, energético... Mas quando comecei meu primeiro estágio, criei o hábito de tomar café por ele ser de fácil acesso.

Eu acordava cedo para ir para a faculdade, passava a manhã estudando e, depois do almoço, ia estagiar na Promotoria de Proteção à Saúde Pública. E eu tinha muito sono. Era muito difícil ficar acordada, lendo letras miúdas em um lugar escuro e silencioso sem ter sono. Por isso, comecei a tomar o café da promotoria. Era um café bem ruinzinho, comprado por licitação e feito às pressas com água fervendo. Eu misturava esse café com quantidades absurdas de leite em pó (também comprado por licitação) em um copo de poliestireno e criava um creme fumegante para me manter acordada até a hora de ir embora.

Como é natural, com o tempo minha resistência ao café foi aumentando, assim como a quantidade de café que eu tomava. Atualmente, meu consumo de café é limitado a uma xícara de café com leite assim que eu acordo e mais uma xicrinha de café preto, sem açúcar, depois do almoço. Não porque eu goste particularmente do gosto, mas porque, sem esse up da cafeína, parece que não tenho energia para enfrentar meus compromissos. É uma relação de dependência. Alguns dias particularmente ruins pedem por uma grande caneca de café preto, tal qual uma festa ruim pede por um grande copo de destilado que vai te manter ocupado e anestesiado até poder voltar para casa.

Mas a que custo? O café, além de não ser exatamente agradável ao paladar, também faz mal para o estômago e para a cabeça. Tremedeira, crise de ansiedade, azia, dor de estômago e gosto ruim. Talvez essa ruindade toda sirva para nos distrair da desgraça que é a vida do trabalhador brasileiro. Como é que dizem? Que o remédio para dor de cabeça é uma martelada no dedo?

No fim do dia, sobra no fundo da caneca aquele último gole de café frio que seu corpo rejeita. Um desfecho amargo para um dia ruim.


 

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