Blog pessoal da Carol. Mantenho o blog desde 2009 para compartilhar histórias e sentimentos que eu não sei como lidar.
sábado, 7 de abril de 2012
13- O Fim!
quinta-feira, 29 de março de 2012
12- Climax e por aí vai
Seus dedos finos estavam se enrolando nos meus pelos do peito. Eu a abraçava extasiado. Eu faria qualquer coisa por essa mulher. Eu estava muito envergonhado por ser tão pobre e tosco. Se eu quisesse me casar com ela (e queria) eu tinha que trabalhar, conseguir dinheiro, para comprar uma casa boa e bonita, para quando, quem sabe, nós tivéssemos filhos eu pudesse sustentá-los, dar-lhes uma boa educação, para que não passassem por isso quando conhecerem o amor da vida deles.
Sentia que poderia trabalhar direto, todos os dias da semana, só para ter uma hora, domingo à noite, para quando chegar em casa, ver ela. Te-la para si, como estava naquele momento. Acariciei as suas costas com a ponta dos dedos. Ela tinha uma pele tão macia. Tão perfeita, tão branquinha. Chegava a ser feia a comparação entre a minha mão, morena, seca e áspera com aquela pele de Afrodite. “Sua pele parece um pêssego” eu disse para ela. “Doce e com pelinhos?” ela perguntou , ironizando. Eu sorri e apertando-a mais um pouco contra mim respondi “Aveludada”. Ela não me respondeu nada. Ambos suspiramos. “A propósito, eu ainda não sei o seu nome” ela subiu até ter os olhos na altura dos meus “ Você não precisa saber. Eu não preciso ter nome. Basta dizer que sou toda sua. E que eu serei para sempre.” Nos beijamos.
Um beijo era mais doce que outro. Parece que as semelhanças dela com um pêssego eram sim, mais que uma. Mordi meu lábio quando o beijo se encerrou. Ainda podia sentir os lábios dela nos meus. Tudo nela era perfeito, até mesmo o cheiro que ela exalava era doce e suave.
Ela levantou por um estante da cama. “ Vou lavar o rosto” Ela disse, e foi andando até o banheiro. Eu tive vontade de levantar e ir com ela, mas sabia que isso seria idiota. O jeito era esperar ela voltar. Escutei o ranger agudo da torneira, depois a água saindo de dentro. Espero que a água não esteja enferrujada. Tomara que não esteja. Escutei o ranger novamente. Ela voltou. Deveria eu perguntar sobre a água? Ou fingir que minha água nunca foi enferrujada?
Esqueci o que eu estava pensando, momentaneamente, quando ela deitou em cima de mim novamente. Abracei-a. Porque sempre tinha que ficar longe de mim?
sexta-feira, 9 de março de 2012
11- para a batcaverna
Posso definir os estantes em que estávamos caminhando para a minha casa como os mais reconfortantes e alegres da minha vida. Ela estava aninhada no meu ombro,e nossos passos em plena sintonia.
Jesus Cristo, ela só me conhecia há alguns dias... Dois dias! Teria ela passado pela mesma situação que eu? Teria ela sentido aquela necessidade de encontrar-nos? Eu não me importava com o tempo. A verdade é que eu passei em vinte e quatro horas, sensações que nunca avia sentido na minha vida, e mais intensamente que qualquer outra coisa por que já passei. Em outras palavras, ela era a mulher da minha vida. Ela era a minha vida.
Chegamos ao meu apartamento mais rápido do que eu imaginava, muito mais rápido do que eu desejava. Mais a pobre menina parecia ter medo de andar na rua de noite, então, foi um alivio para mim. Mas o alivio durou pouco. Subimos os três lances de escada e chegamos ao meu apartamento. Meu pequeno e humilde apartamento. Meu minúsculo e decadente apartamento. O meu desconfortavelmente apertado e descomunalmente esquálido apartamento. Cinzento da poeira e da tinta descascada das paredes. Tudo que eu tinha era minha cama quebrada, com o colchão estragado um lençol que há muito não lembro de ser lavado. Do lado da cama, um banquinho que eu uso como criado-mudo com duas ou três obras literárias que eu havia achado no lixo outrora, do qual grande parte já desencapados.
Esse era o cômodo principal. Mas havia um outro cômodo, o banheiro, que tinha uma latrina, uma pia grudada na parede e o chuveiro, que quando aberto inundava todo o apartamento, devido a ausência de um box para isolá-lo do resto do banheiro. Sem contar da água glacial que sai dele. Tudo isso separado do ‘resto’ do apartamento apenas por uma cortina de plástico.
Rezei para que no mínimo a única lâmpada do meu apartamento acendesse. Puxei a cordinha. Acendeu e então se apagou. Mas então se acendeu novamente, e apagou-se imediatamente. Finalmente ela acendeu, e permaneceu assim, tirando as falhas que aconteciam com certa decorrência.
“É bem humilde como você pode ver” eu disse constrangido até meu ultimo fio de cabelo. “Eu acho confortável” disse ela sorrindo para mim. Não consegui conter um sorriso em resposta “Ah, por favor...Não precisa falar assim. Eu sei que é um ambiente desagradável.” . Ela de súbito, pos-se diante de mim, pegou minhas mãos e beijou-as uma seguida da outra “Você não precisa disso... Eu gosto daqui porque você está aqui”. Boquiaberto, não pude conter uma pequena exclamação. Abracei-a. Abracei-a emocionado, o coração palpitando. Pousei a mão em sua nuca nua e trouxe sua cabeça para meu ombro. Ela assim que se viu livre da minha mão beijou-me. Eu senti minhas pernas bambearem. “Eu e amo” murmurei entre seus lábios. “É, eu sei... Eu também”
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
10- Você não acreditaria
Ela olhou pra trás. Perguntou-me “Você não vai pegar seu casaco?” eu demorei um pouco para entender o que ela estava falando. “Ah, sim, o casaco...” Pensei mais um pouco. Eu podia deixar ele ali. Mas era uma das únicas coisas que eu possuía no mundo, e se fizesse falta eu não saberia como repor. Me libertei de seu abraço por alguns estantes, correi até meu casaco, e amarrei-o encharcado na minha cintura.
Seguimos andando pelas ruas molhadas, com a calçada escorregadia. Toda vez que ela pisava em falso, ou parecia que ia tropeçar, eu a segurava firme, com cuidado para não apertá-la mais não por isso, menos desesperadamente.
Cada passo que eu dava era uma alegria. Cada passo que eu dava, era um passo a mais na minha vida, ao mesmo tempo, que era um passo a menos em sua presença. O que antes era um passo em potencial tornava-se passado, um passado que não voltaria em uma vida finita, em que eu não poderia simplesmente andar para sempre abraçado com ela.
Sentia que o fim estava próximo... Que faria eu quando chegasse? Isso é, se eu deixasse que chegasse. Como já disse, estava decidido a não deixar ela escapar novamente. Pois eu me sentia o homem mais feliz do mundo perto dela. Eu me sentia verdadeiramente um homem.
Os postes de ferro (tão charmosos) se acenderam. Já deviam ser sete horas. Ela parou na frente de uma casa. “a casa da minha avó já é aqui!” Era agora. Se eu não tomasse a iniciativa ninguém mais o faria. Estava ciente de meus deveres. Puxei-a para mim, e com toda a delicadeza depositei um beijo em seus lábios vermelhos.
Eu podia escrever paginas e paginas sobre aquele beijo que ela cedeu sem resistência. Aquele beijo que podia ter durado para sempre e ainda mais. Podia escrever paginas sobre os dedos delicados que se prenderam no meu cabelo, podia escrever um livro inteiro só sobre as gotas que passavam do meu rosto para o dela.
Mas prefiro passar direto para quando o beijo cessou o que foi uma infelicidade, mas as palavras que derem espaço para ele geraram uma enorme felicidade. “acho melhor agente ir para o seu apartamento agora...”
sábado, 19 de novembro de 2011
9- Ninguem vai ler mesmo...
Ela ia tomando a dianteira, e eu gostava de ver como ela andava, com um pé exatamente na frente do outro. Mas decidi que preferia poder olhar para seu rosto. Adiantei-me para seu lado. Na distancia de um passo entre eu e ela, eu pude escutar os dentes dela batendo. “ Você está com frio!” eu me indignei. Como eu pude deixar? Deixar que seus lindos lábios vermelhos ficassem roxos? Que seu narizinho levemente arrebitado ficasse vermelho? Era lindo, mas era o cumulo! Comecei a tirar o casaco “Tem certeza que não quer meu casaco?” “Sim” ela respondeu com a voz começando a ficar fanha. Era como se ela dissesse sim, mas eu escutasse não. Ela começou a apressar o passo, e eu fui apressando junto dela. Ela espirrou “ Desculpe” Ela disse cobrindo a boca com a mão. Parei de andar de repente, tirei o casaco e dei para ela, mais ela se recusava a por, eu não ia tentar colocar a força, mais eu estava começando a ficar desesperado. “Por favor” Eu pedi “Não agüento olhar você assim. Se acontecer algo com você eu sou capas de...” Não terminei. Enfiei meu casaco sob os ombros dela aproveitando que ela estava parada, e ainda por cima tirei meu ridículo casaco de lã, que fazia com que eu me sentisse deis vezes mais maltrapilho do que sou. Joguei-o no chão. Já estava encharcado mesmo.
Ela estava olhando para mim. Olhando diretamente nos meus olhos. Atenta. Tão perfeita. Tão perfeita. “Eu te amo” declarei “Ardentemente.”. Se eu tivesse tido tempo de pensar no que tinha acabado de fazer, eu teria me jogado de um precipício. Não faço a menor idéia do que esperava que fosse acontecer, mas com certeza a última coisa que eu esperava foi o que aconteceu a seguir. Ela pegou na minha mão, me puxou para de baixo do meu casaco “Nós podemos dividir” disse ela “ele é grande o suficiente ara nos dois.” E abraçou minha cintura. Aquilo era uma resposta? Era um sim? Um não?
Aquilo era tudo. Excedia meus melhores sonhos, minhas maiores expectativas. Estávamos nos aquecendo, em uma troca de calor mutua. Não preciso nem dizer que eu estava tenso. Muito tenso. Mas era uma tensão boa, eu estava feliz. Deveria estar de outra forma?
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
8- O limiar entre o real e o imaginário
Ela espichou os olhos para a janela, meio tristonha . “ Bem... Já tenho que ir.” Ela se levantou.Antes que eu pudesse ficar triste Ela exclamou, temerosa “Já está escurecendo!”. Não ia perder uma oportunidade dessas, e o mais importante, saberia que ela ia chegar bem em casa. Segura e confortável. “Se quiser” sugeri me levantando junto “eu posso te acompanhar até perto da sua casa...” me calei por um estante “se você não se incomodar claro.” Ela sorriu e pegou na minha mão quando as portas se abriam. Eu senti congelar, depois, corar. “Seria legal”.
Pela primeira vez, fiquei feliz em ver o ônibus indo embora. Pois desta vez, excepcionalmente, ela estava do meu lado. Que coisa extraordinária! Ela estava do meu lado!
O vento continuava a soprar, e com ele, trazia gotículas de água, em uma chuva rápida e escassa. A rua tinha algumas árvores baixas crescendo na calçada, todas sem folhas, balançavam com o vento. Prédios pequenos, de três ou quatro andares, pintados de cores claras, humildes, porém graciosos. Será que ela morava em um deles?
Olhei para ela; estava de vestido e só tinha uma jaquetinha aquecendo os ombros. Pensar que ela estava com frio, me gelava o corpo todo. Fui instintivo, nem ousei em pensar duas vezes “Você não quer meu casaco?” perguntei. Ela olhou para mim, quase que incrédula “E você vai se aquecer como?” Ela me perguntou. Fiquei sem resposta por um tempo. O que eu deveria responder agora? “Eu não estou com frio.” “ E nem eu.” respondeu ela. Será que era verdade? Ela estava tão mal- agasalhada. Mas eu não deveria insistir. Corria risco de parecer obsessivo, talvez ela fosse pensar que minhas intenções eram outras.
sábado, 8 de outubro de 2011
7- Literatura Classica
terça-feira, 27 de setembro de 2011
6- Momentos no onibus
Eu devia ter vergonha de fita-la nos olhos, assim tão descaradamente. Mas ela não parecia se incomodar. Ela voltou para o lugar dela, na janela. Ia olhando despercebida a rua lá fora, quando em um sobressalto ela exclamou “Passei do meu ponto!”. Coitadinha, parecia meio abalada, um tanto confusa. Eu abri a boca para falar. Fechei de novo. Mais então abri novamente. Agente nunca mais se veria, muito provavelmente “Que tal parar no próximo ponto?” Falei o mais educadamente possível. Não queria que ela pensasse que eu a achava burra ou algo do gênero. Ela olhou para baixo, constrangida. “Pois é... É o mais lógico, não?” Ela bateu um calcanhar no outro, fazendo estalar os saltos dos sapatos boneca. “ Pena que eu nunca desci no próximo ponto, quer dizer...” Ela me apontou a janela “olha como é lá fora!” Era uma rua escura, meio suja, mais foi só isso que eu vi nela. “eu não consigo andar lá. Eu espero o ônibus dar mais uma volta, e parar no ponto anterior, quando isso acontece” ela corou e falou baixinho, talvez achando que eu não estava escutando “o que ocorre com certa freqüência”. Eu não gostava de ver ela daquele jeito. Sim, ela ficava linda constrangida, meiga. Era algo bonitinho de se ver. Mais me partia o coração. Ela parecia meio desamparada, e eu tinha uma vontade louca de fazer ela se sentir melhor. Mais o que eu podia fazer?
Pensei seriamente em oferecer meu braço, para descer nesse ponto com ela. Mais ela não ia aceitar a ajuda de um estranho maltrapilho e bizarro que do nada, decidiu socializar com ela. Mais uma coisa eu podia fazer. Podia ficar no ônibus com ela. Talvez não fosse a melhor companhia. Mais não deixava de ser uma. Sem contar, que eu podia ficar olhando para ela, escutando a sua voz. Deixei-me envolver novamente pela mágica que ela exercia. Ela era perfeita. Simples assim.
Para ser sincero, eu fui meio egoísta. Fiquei um tanto feliz por ela ter perdido o ponto. Não queria me separar dela. Não ainda. Não agora.
O silêncio era bom. Permanecemos muito tempo assim. Mas assim como ontem, eu queria falar com ela. Era tão interessante. Tudo era interessante. Deis de o que ela falava até como ela falava. Como os lábios se mexiam, quando e como ela piscava. Meu Deus do céu, tão apaixonado... Tão apaixonado.
sábado, 10 de setembro de 2011
5- Acaba a persaguissão
Catei o dinheiro para o ônibus, o dinheiro que eu tinha ganhado ontem. Dei tudo para a cobradora. Ela me devolveu mais da metade.
Dirigi o olhar para o interior do ônibus procurando-a. Não foi difícil de achar. Logo vi os olhos coloridos que olhavam para mim. Agarrei-me em um banco, quando o ônibus começou a entrar em movimento. Era incrível como ela chamava atenção. Tão discreta. Só os olhos voltados em minha direção. Não era ela, era o ar envolta dela. Como se o sol estivesse sempre vindo por detrás dela.
Sorri. Eu estava feliz. Feliz por vê-la de novo. Tão surreal. Tão real. Eu estava cegamente apaixonado. Respirei fundo. Teria coragem de falar com ela? O que eu deveria falar? A timidez tomava conta de mim.
Sentei-me paralelo a ela, na outra fileira. Abri a boca para falar com ela, as palavras me escapavam. Minha boca estava seca. “Hum...” comecei a falar ela se virou para mim. Tão linda. “ Eu não tive tempo de agradecer por ter pego meu caderno.” Ela continuou olhando para mim, e eu me vi na obrigação de falar mais “Então, obrigado. Muito obrigada mesmo, foi muito...” ela sorriu “...gentil...” ela continuou sorrindo. Tão linda em cada detalhe, ela parecia ainda mais linda do que ontem “... da sua parte...”. Ela riu, tinha uma risada baixa e linda. Só mostrava os dentes de cima quando ria. Ela tinha uma boca de boneca; pequena, com os lábios superiores finos e os de baixo carnudos, avermelhados, que se moviam com graça enquanto ela dizia; “Não foi nada” Ela ainda olhava para mim. “Posso te fazer uma pergunta?”
Agora e me encontrava em uma situação difícil. O que ela queria saber? Eu ia conseguir responder? Será que ela estava se preparando para zombar de mim? O que ela ia querer comigo? Para todos os efeitos, a pergunta dela só tinha uma resposta. “uhum” respondi, positivamente. Ela saiu do banco da janela e veio para o banco do corredor. Agora estávamos a um corredor de ônibus de distancia. Tão perto. Mais tão longe. Piegas eu sei. Mais um dia todos hão de passar por uma situação assim e irão me entender. “porque você publicou o desaparecimento do seu caderno no jornal. Quer dizer, o que tem de tão especial nele?”. Engoli em seco. O que eu devia responder agora? Não tinha nada de útil nele, tirando é claro, o que se relacionava a ela. “Bem...” eu estava tentando inventar alguma coisa quando ela disse “Estou sendo inconveniente? Desculpe...” ela pareceu meio retraída, mais tímida “Não, não, não é isso não. Não...” ela voltou a me ouvir, atenta. “ Quer dizer, você leu ele não leu? Aqui dentro tem...” Os olhos de gato me hipnotizavam. Tinha que me concentrar no que eu estava falando, o mínimo erro e seria adeus. “... Minhas dividas.” Foi o melhor que eu encontrei na hora. Não preciso dizer tudo que me passou na cabeça, respostas melhores, e mais de mil motivos para não ter usado essa desculpa.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
4- não sei o que!
Levantei conformado. Peguei meus pães e fui andando para o escritório em que eu costumo arranjar uns serviços. Comi um dos pães, enquanto ainda estava quentinho. Foi meu almoço.
Andei mais um pouco. Não. Eu não tinha me conformado. Eu queria aquela caderneta. Eu precisava dela. Sim, dela. A luz dos olhos coloridos daquela garota quase me segava. Eu não sabia por onde estava andando. Quase bati na porta do escritório. Um colega meu de infância trabalhava lá. Livrei-o já de alguns problemas quando ainda éramos crianças. E por isso eu podia contar com ele. Só para isso, imagino eu, era uma emergência. Fuji andando muito rápido (só para não dizer correndo) até um certo escritório, algumas quadras dali. Não sabia exatamente sua função, mais algo me dizia eu era de contabilidade.
Controlei-me para não puxar ele pelo colarinho e gritar. Acenei, ele olhou para mim e respondeu com um sinal de cabeça. “ Preciso da sua ajuda” eu falei com a voz meio tremula. Ele olhou para mim por cima da lente dos óculos. Que olhar era aquele? Incredibilidade? Má fé? Em fim, não tinha tempo para isso, o resto da frase veio naturalmente: “Preciso por um anuncio no jornal” ele pareceu meio surpreso “Vai me ajudar?” perguntei sem tentar parecer impaciente, apesar de estar.
Ele me ajudou. Não posso descrever os momentos de angustia que passei. A tarde toda esperando... Fazendo ligações. Forçando “obrigadas” até a voz ficar amarga. Mais finalmente, consegui publicar o seguinte anuncio:
“Procura-se aflitivamente um pobre caderninho azul que tem escrita na capa a palavra “endereços” e dentro está sujo, rabiscado e velho”.
Pequeno, mais não havia mais muito que se falar. Dei o endereço do meu apartamento. E fui buscar um café para o pessoal do escritório na rua de baixo em troca de alguns reais.
Quase não dormi. Até mesmo o dia 13 virou o dia do azar. Até mesmo o 13! Porque me abandonastes? Passei grande parte da noite olhando para o teto, e pensando naquela menina linda. Cada vês mais convencido deque ela fora um sonho.
Dia seguinte, acordei, fui até a pia gotejante e enferrujada do meu banheiro. Abri a torneira e esperei que a água marrom saísse para limpar a cara com a água beje-trasparente-claro. A água era estupidamente gelada, e fez com que eu sentisse dor na ponta dos dedos por algum tempo. Mais não era maior do que a dor que eu sentia por dentro, como um caroço na garganta. Ela não era real?
Já era meio dia quando eu desci para a rua e ventava muito devido mudança de temperatura da hora do almoço. Almoço para os outros. Eu não ia comer. Não tinha fome.
Caminhei, meio desanimado, pelas ruas disformes e movimentadas, gélidas, cinzentas e antipáticas da cidade. Até o ponto de ônibus. Minha barba gelava o rosto, e não era espessa o suficiente para impedir que o vento batesse forte na minha cara. Enfiei as mãos no fundo dos bolsos e abaixei minha cara para dentro do casaco quase.
Escutei uma risada jovial. Eu conhecia aquela voz. Olhei para o lado. Lá estava ela, com sua boina portuguesa amarela, um jornal debaixo do braço e uma caderneta azul na mão. Ela estendeu a caderneta para mim. “Esqueceu isso ontem no ônibus”. Eu ia começar a agradecer sem parar, então ela me mostrou o anúncio no jornal. O meu anúncio. Riu mais um pouco e completou “Não está só sujo e rabiscado, tem uns desenhos e umas observações bem interessantes ai dentro”.
Eu estava perplexo. Quase boquiaberto. Eu não conseguia me concentrar olhando para ela. E não conseguia conceber que ela tenha lido o conteúdo de dentro do meu caderninho (graças a Deus, não escrevi nada sobre ela lá dentro). Tão extasiado, tão nervoso, que só consegui balbuciar um “obrigado” débil, enquanto a porta do ônibus se fechava e ele sumia na esquina. Deixando-me para trás, com a caderneta azul na mão.
Senti como se tivesse levado um soco. No completo vácuo. Olhei para a caderneta. Sim ela era real. Senti o sangue subia até minha cabeça, em um estopim de adrenalina. Agora já não sentia mais frio. Comecei a correr o mais rápido que pude. Desviava dos transeuntes, preocupado em não trombar com ninguém, mas mais preocupado em chegar ao próximo ponto. Saltei as deformidades da calçada. Agradeci aos céus por não ter chovido, caso contrario, já teria quebrado todos os meus dentes na calçada. Podia até sentir o gosto da pedra na minha boca. Mordi os lábios, protegendo os dentes, mesmo sem necessidade.
Cortei caminho por becos, praças e até mesmo por canteiros de flores. Cheguei ofegante ao ponto. Esperei, arfando, o ônibus. Parado porem, ainda mais nervoso! O coração pulando para fora da caixa do peito. O ônibus tinha que chegar. Era crucial. Essencial. Eu não ia perdê-la. Não novamente. Tinha que falar com ela. Uma ultima vez.
sábado, 20 de agosto de 2011
3- caderninho azul
Ela olhou pra mim de novo, eu não parei de olhar. Ela sorriu, eu sorri. “Dia treze” ela disse. Eu não sabia o que falar, porque tinha medo de parecer idiota. Eu concordei com a cabeça. Senti que não era o suficiente “é... acredita em azar?” completei medindo bem minhas palavras. “Não...” ela respondeu “só em sorte”. Um silêncio nos seguiu. Eu gostava do silêncio porque eu podia olhar pra ela, mais não gostava porque eu queria escutar a voz dela. E me sentia importante quando ela olhava pra mim. Ia tentar algo arriscado. Algo que excedia todas as minhas expectativas. Um salto mortal em um precipício infinitamente profundo. “Você me passaria seu telefone, por favor?”. Não esperava que ela passasse o telefone dela realmente. E mesmo que sim, eu não ia ligar pra ela, não costumo usar telefones. Não muito. O fato era que eu tentava puxar assunto, e subir um degrau do nível do nosso relacionamento para talvez o início de uma amizade, mais isso era chutar alto. Ela me passou um número de telefone. Que eu anotei com as mãos débeis devido ao movimento do ônibus em minha caderneta azul. Meio preocupado com os pães, meio preocupado com minhas anotações. Infelizmente, o ônibus se aproximava do ponto, e eu sentia meu coração esmilinguir. Era um adeus. Desci do ônibus. Olhei ele sumir na esquina, lá dentro ia embora a coisa mais linda que eu vi na vida. Era como se fosse um sonho. Como se nada na via pudesse ser tão bom quanto escutar a voz dela, e vê-la nos olhos.
Mas graças aos céus, eu tinha uma coisa. Uma coisa que era a prova de sua existência. Uma coisa para me lembrar, nesse gélido inverno, que ela sorriu para mim. Apalpei meu bolso em busca de minha caderneta. Não estava em meu bolso direito, naturalmente, eu sou destro. Troquei os pães de mão. Apalpei o bolso esquerdo. Também não estava lá! Me desesperei. Quase joguei os pães no chão para enfiar as duas mãos nos bolsos. Eu sentei no chão, deixei os pães bem protegidos e procurei em cada bolso interno, em cada fundo de meia, até mesmo dentro da cueca. Não estava em lugar nem um. Eu esqueci no ônibus. Perdida, agora sim, para sempre.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
2- No ponto do onibus
Andei mais uma ou duas quadras, protegido de qualquer desventura pela mágica do dia 13. Parei no ponto de ônibus. Aquele lugar meio cálido, meio sujo e meio desconfortável. Menos quando chove o que acontece com certa freqüência. Daí o ponto de ônibus se torna confortável. Quando eu cheguei no ponto de ônibus, ninguém que estava lá olhou para mim. O que era legal, porque eu podia olhar elas sem medo de quem me notassem. Deviam ter umas quatro pessoas lá. Dei uma olhada por cima, porem, meu olhar se estagnou em uma pessoa só. Nela.
Era uma garota. Muito bonita, devia ter seus dezessete anos de idade. Ela chamava atenção, era como se ela iluminasse o canto do ponto em que ela estava escorada. Ela olhou pra mim, e ela tinha olhos lindos, coloridos, com jeito de gato. Mais eu não podia olhar para eles por muito tempo. Não queria que ela se assustasse comigo. Mudei a direção do olhar, disfarçadamente. Olhei para a esquina. Meu ônibus já estava chegando. Mais alguma outra pessoa chamou ele. Não notei quem, não queria virar meu pescoço para aquele lado, para não me prender novamente nela. Seria melhor assim, se eu nunca mais a visse na vida, para não me acostumar com esse tipo de beleza, que eu não ia conseguir encontrar em lugar nem um. Mais eu estou sendo exagerado não estou?
Entrei no ônibus meio empurrado, evitando para não empurrar quem viesse na minha frente. Enfiei as mãos no bolso, pegando as moedas que me restavam. “Faltam dois” disse a cobradora. Eu gelei. Não tinha dinheiro para o ônibus. Dois! Sempre dois! Se três é um numero da sorte, dois é um numero do azar. Já estava pronto para sair do ônibus quando uma mão pequena e delicada colocou duas moedas na mão da cobradora, segui o braço que passava por trás de mim e encontrei os olhos novamente. Passei, meio de costas, pela catraca, enquanto ela pagava a própria passagem. “Muito obrigado” eu disse. “Muito obrigado mesmo”. Ela sorriu. Agora não tinha mais jeito, eu estava apaixonado. “Não foi nada” Ela respondeu, com a voz meio baixa, quase rouca. Linda. “Não, sério, muito obrigada” eu repeti, por uma última vez.
Eu sentei, rápido, em um banco que estava vazio, ela sentou do outro lado do corredor, paralela a mim. Eu olhei para ela novamente. Estava usando uma boina portuguesa amarela. Os cabelos, castanhos escuro, Chanel. Uma jaquetinha preta. Por baixo, um vestido de crochê cinzento. Meia calça escura e os impecáveis sapatinhos de boneca. Ela parecia mesmo uma boneca. Com a pele tão branca, olhos brilhantes com os cílios negros e compridos. Eu não queria ficar encarando. Mais não conseguia. Simplesmente não conseguia. Não podia desviar os olhos dela. Sobre tudo dos olhos dela.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
1- dia 13
Terça feira, 13 de junho de 1993. Mais especificamente, anteontem. Andava nas ruas, meio displicente.Deviam ser umas oito da manhã, estava todo mundo, aparentemente, acordado, manos eu, e ninguém parecia notar isso, o que é muito natural, uma vez que não é comum que as pessoas apressadas do centro notem nas outras, em mim, muito menos. O fato era que eu andava em pleno centro da cidade exatamente como avia acordado há poucos minutos. Poucos mesmo,cinco no maximo, mais em fim. Tinha o cabelo despenteado e a barba por fazer. As roupas grudavam no meu corpo, meladas, do suor noturno. Eu não uso pijama para dormir. Durmo de casaco, pois meu apartamento encana vento, é mais frio do que na rua.
Uso uma regata (não sei bem dizer a cor) uma blusa de lã grossa, e um casaco de lona, que vai até meus joelhos, demasiadamente comprido nas mangas, semelhante há uma capa de chuva, tirando que é um tanto permeável. Um tanto ,diga-se muito. Uso jeans surrados, botas com a sola quase soltando, compridas, luvas de dedo esfarrapadas, e um cachecol. As vezes uma boina, que eu ganhei, ainda moleque, do meu pai.
Olhei meu reflexo na vitrine de uma loja se sapatos. Como tenho cabelos e olhos escuros não consegui vê-los com muita nitidez, mais mesmo assim, consegui tirar a sujeira matinal dos meus olhos. Alguém de dentro da loja me olhou, por de dentro da vitrine. E eu saí, constrangido, meio correndo, para longe dali. Mais exatamente, até a padaria. Quando entrei no estabelecimento, já me dirigi a fila do pão amanhecido. Não me importo em comer o pão duro, pelo contrario, quando como, penso que impedi que a comida fosse jogada fora. Pego o pão quentinho, naqueles sacos de papelão, ele fica mais quietinho da segunda vez que sai do forno. Infelizmente minha intimidade com o pão é cruelmente cortada pelo olhar gélido da balconista. Mais gélido que a rua, ainda mais gélido que o meu apartamento. “Já ta na hora de pagar o que você deve em? Já fazem quase três semanas...” Antes eu ela termine, eu enfio a mão nos bolsos e tiro uma porção de moedas lá de dentro. Começo a contá-las. Mais eu me perco já na terceira moeda. Sou péssimo em matemática. Talvez por isso nunca encontre um emprego descente. Ou por isso não pare em nem um deles. “Quanto eu devo mesmo?” pergunto para encobrir minha aparente confusão. Ela suspira, impaciente, “Cinco” eu entrego metade das moedas. Ela conta, e por um segundo eu achei que ela fosse cuspir na minha cara “ainda faltam dois.” Ela fala ríspida. “ Eu pago amanha, ou depois, eu prometo” Digo, com toda a sinceridade do meu coração, apesar de não ser convincente. Eu pego a minha cadernetinha, que Ra para ser de endereços mais eu não uso pra isso. Uso pra tudo, menos isso. Anotei lá; Dois reais para a padaria da esquina. Procurei um canto para por a data. Mais não sabia que dia era hoje. Levantei os olhos para perguntar para a balconista, mais derrepente, me senti meio desconfortável para isso, meio inseguro. Engoli em seco e perguntei “Que dia é hoje?” ela me apontou um pequeno calendário de papel. Dia 13. Sorri e anotei em minha cadernetinha azul.
Dia ao contrario das outras pessoas é meu dia de sorte, brincadeiras a parte, deve ser porque todos os outros dias são dias do azar para mim. Não sou lá dos mais sortudos.