quarta-feira, 30 de setembro de 2026

As memórias da terra

Tenho tido muitas crises de ansiedade ultimamente. Mais do que o comum. Depois de  uma vida toda fazendo terapia e análise junto de psicólogos eu aprendi a me amar o suficiente para entender que eu não posso individualizar (em mim mesma) as consequências de um sistema que afeta toda nossa sociedade (capitalismo).

Na infância, fui acompanhada por duas psicopedagogas. Quando entrei na faculdade comecei a me consultar com psiquiatras e depois entrei na terapia. Foram três métodos diferentes. Primeiro a análise clássica, Freudiana. Nessa época quando eu relatava minha angustia com a crise climática e com o "fim do mundo" minha psicanalista dizia "mas qual é o mundo dentro de você que está acabando?". Era como se os relatórios do IPCC fossem apenas o capítulo de uma novela que eu assisti a tarde que causou uma DR no fim da noite. Fiquei muitos anos nessa abordagem, desde meados de 2014 até outubro de 2022.  Foi quando eu disse para ela que estava preocupada com o resultado das eleições, por ser ambientalista, e que estava pensando em sair do pais. Minha então psicóloga respondeu "não vai acontecer nada com você, você não mora na favela". Depois daquele dia encerrei nosso trabalho juntas.

Fiquei pouco tempo sem terapia. Nessa época eu estava trabalhando com fiscalização ambiental no Instituto Água e Terra e fazendo minha especialização em Engenharia e Gestão Ambiental. Tive um surto de pânico em junho de 2023. Estava pesquisando sobre litigância climática para escrever meu TCC e me deparei com dados desesperadores sobre a morosidade da justiça e a eminência da falência do sistema agrícola global. Tive crises de choro, passei dois dias sem dormir.

Foi então que comecei a fazer acompanhamento com uma psicóloga maravilhosa. O método era análise comportamental clínica mas ela também utilizava da vertente histórico-cultural e ainda mais interessante que isso: Budismo. Foi ai que aprendi alguns mantras que eu repito de forma meio fúnebre, mas que até hoje foi uma das poucas coisas que aprendi que fazem meu peito parar de doer. "Todos vamos morrer um dia. O sofrimento é inevitável. Não sofra hoje por algo que ainda não aconteceu. Você pode morrer essa noite e não vivenciar isso que tanto te preocupa". E esse canto de exéquias tem embalado meu sono a noite e me tirado da cama todas as manhãs. Essa psicóloga me ajudou muito, mas eu tinha muita dificuldades de enfrentar uma questão central nas nossas conversas: meu isolamento social e meu apego evitativo. Eu não conseguia avançar e isso desgastou muito nossas sessões. 

Tive uma crise forte na minha vida pessoal esse ano, ligado principalmente a minha saúde. Nesse momento de crise me voltei a uma amiga recente que também é psicologa e deixei minha psicologa budista para curar outras pessoas. Essa minha amiga além de atender pela eco-psicologia tem um atendimento todo diferenciado, com fenomenologia, psicologia corporal e um toque próprio anticolonial de sabedoria originária que eu gosto muito. Ainda sim, me cutuca a ideia que estou individualizando um problema coletivo e não sei se devo continuar. Nesse momento eu preciso mesmo é de uma amiga, e não de uma psicóloga.

Paralelamente a isso li todos os livros do Krenak, em especial o "ideias para adiar o fim do mundo". Quando meus mantras soam demais como sinos fúnebres em meus ouvidos eu me volto para esses livros como quem busca a sabedoria de um avô. Me agarro nas palavras de Krenak como uma boia salva vidas em meio a um mar tempestuoso e ondas gigantescas. Todo mundo aqui já deve ter lido em algum lugar as palavras "Não podemos nos render a essa narrativa de fim de mundo. Essa narrativa é para nos fazer desistir dos nossos sonhos". Escuto a voz do ativista recitando essas duas frases na minha cabeça. Penso "O Ailton Krenak ia gostar de me ver sendo corajosa. Ele falou que eu não posso me render" e me agarro com força enquanto as ondas invadem meu nariz, minha boca e meus olhos se enchem de água salgada.

O que pouca gente sabe é a continuação dessa frase. "Não podemos nos render a essa narrativa de fim de mundo. Essa narrativa é para nos fazer desistir dos nossos sonhos. E dentro dos nossos sonhos estão as memórias da terra e dos nossos ancestrais."

Tenho tido dificuldades para sonhar. Faz muitos, muitos, muitos anos (uma vida toda?) que tenho tido minhas noites perturbadas por pesadelos. Mas sei que o sonhar do Krenak não é esse sonhar tão literal e fisiológico (mais ou menos) mas também o sonhar do desejo, do planejamento do futuro e aquilo que faz nosso olho brilhar.

Em setembro do ano passado participei do "Sétimo Seminário Junguiano de Imaginação Política: Crise Climática" onde vários profissionais sérios se reuniram para debater os efeitos da emergência climática na mente das pessoas. Eu dei uma palestra curta, ansiosa e tremula, sobre como ser ativista climática me ajuda a processar meus sentimentos frente a emergência climática. Uma das grandes questões da ansiedade climatica é ver os inúmeros alertas e os sinais cada vez mais claros do colapso ambiental e seguir a vida normalmente como se nada estivesse acontecendo. Eu quebrei essa apatia com minhas próprias mãos me dedicando a fazer tudo que está no meu alcance para que eu sirva como catalisadora da mudança que eu quero ver no mundo. E conhecendo pessoas dispostas a fazer o mesmo no caminho.

 Nesse seminário fizemos um exercício de imaginar utopias. Tive muita dificuldade e falhei em vários momentos. Mas consegui arranhar a superfície de uma Curitiba com menos carros, mais árvores, menos gases de efeito estufa e mais vida. Depois que o seminário acabou continuei nutrindo a pratica de imaginar utopias e busco alimentar essa imaginação com exemplos reais. Busco dados sobre como a China está (está?) reduzindo sua emissão de CO². Busco os dados sobre os investimentos em energia renovável estarem ultrapassando os investimentos em energia fóssil em vários países do mundo. Busco construções na estética solar-punk (só encontro ilustrações!!) e exemplos de recuperação ambiental. Mas dificilmente me sinto melhor.

Minha psicóloga budista me recomendou um livro que eu nunca encontrei em livrarias físicas. "Quando Tudo se Desfaz" da monja Pema Chödrön. Ela me recomendou esse livro enquanto eu estava em uma crise terrível, transpassada pelo medo da guerra nuclear, do descontrole da tecnologia de IA e claro, pelo colapso climático. Essa semana depois de muito resistir, encomendei o livro físico por correio (ninguém vai me convencer que datacenters são mais ecológicos do que papel) mas com a dor no coração de saber que o transporte desse livro vai liberar GEE.

Foi então que eu sonhei.

Eu sonhei com meu livro sendo entregue por trem. Fiz uma pesquisa rápida na internet e descobri que na China existem trens de carga elétricos que carregam livros. E meu coração bateu macio. Meus olhos brilharam enquanto eu sonhava com esses vagões carregados de livros de um lado para o outro, sem emitir Gases de Efeito Estufa. 

Lembrei das palavras do Davi Yanomami "Os brancos desenham suas palavras porque seu pensamento é cheio de esquecimento. Há muito tempo guardamos as palavras de nossos antepassados dentro de nós e as continuamos passando para nossos filhos". Pois é Davi. Você tá certo. Minha cabeça é cheia de esquecimento. E eu amo livros e a palavra escrita... Desculpa.

E as palavras do pajé Yanomami tomaram outra proporção quando eu lembrei das histórias do meu avô. Não o Avô Krenak, mas do meu vovô mesmo. Ele contava que quando ele era criança ele entrava nos trens de carga em Rio Negrinho para ler gibis. E depois de se perder nas leitura ele tinha que pular do trem em movimento. Me lembrei disso. Meu sonho é a memória do meu avô. De um trem de carga cheio de livros.

"Não podemos nos render a essa narrativa de fim de mundo. Essa narrativa é para nos fazer desistir dos nossos sonhos. E dentro dos nossos sonhos estão as memórias da terra e dos nossos ancestrais." 

Um comentário:

  1. Lindo!!! Também quero sonhar com trens carregados de livros. Amo tens e livros.

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